Tomás responde: Cristo devia conviver com as pessoas, ou levar uma vida solitária?

Jacopo Tintoretto (1518-1594), Ecce Homo ou Pilatos apresenta Cristo à multidão, Museu de Arte de São Paulo – MASP (clique para ampliar)

Parece que Cristo não devia conviver com as pessoas, mas levar uma vida solitária:

1. Com efeito, na verdade, era necessário que, em seu modo de viver, Cristo se mostrasse não apenas homem, mas também Deus. Ora, não convém a deus conviver com os homens. Diz o profeta Daniel: “Com exceção dos deuses, dos quais não é próprio conviver com os homens” (2, 11). Diz também o Filósofo no livro I da Política que aquele que leva uma vida solitária ou é um animal, se o faz por bruteza, ou é um deus, se o faz para contemplar a verdade. Logo, parece que não era conveniente que Cristo convivesse com os demais.

2. além disso, em sua vida mortal, Cristo devia levar uma vida perfeitíssima. Ora, a vida mais perfeita é a vida contemplativa, como se disse na II Parte. E à vida contemplativa importa sumamente a solidão. “Levá-la-ei à solidão e falarei a seu coração” diz o profeta Oséias (2, 14). Logo, parece que Cristo devia levar uma vida solitária.

3. Ademais, o modo de viver de Cristo devia ser uniforme, uma vez que nele devia transparecer sempre o que era melhor. Ora, algumas vezes Cristo procurava os lugares solitários, afastando-se das aglomerações. Remígio assim comenta o Evangelho de Mateus: “Lê-se que o Senhor tinha três refúgios: a barca, o monte e o deserto. Para um deles se dirigia quando era oprimido pela multidão”. Logo, Cristo devia sempre levar uma vida solitária.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, lê-se na profecia de Baruc: “Depois disso, foi visto na terra e viveu entre os homens” (3, 38).

RESPONDO. O modo de viver de Cristo devia ser conveniente ao fim da encarnação, pela qual ele veio ao mundo. Ora, Cristo veio ao mundo em primeiro lugar para manifestar a verdade, como ele mesmo diz no Evangelho de João: “Para isso nasci e para isso vim ao mundo, para dar testemunho da verdade” (18, 37). Portanto, ele não devia ocultar-se, levando uma vida solitária, mas agir em público, pregando publicamente. Por isso diz aos que o queriam deter: “Eu devo anunciar o reino de Deus também a outras cidades, pois para isso fui enviado” (Lc 4, 42-43).

Em segundo lugar, Cristo veio a mundo para livrar os homens do pecado, como se lê na Carta a Timóteo: “Cristo Jesus veio a este mundo para salvar os homens do pecado” (I Tm 1, 15). Diz Crisóstomo: “Embora Cristo pudesse atrair todos a si para ouvir sua pregação permanecendo ele no mesmo lugar, não o fez, dando o exemplo para que andemos de um lugar para outro e procuremos os que estão em perigo, assim como o pastor procura a ovelha perdida e o médico vai até o enfermo”.

Em terceiro lugar, Cristo veio ao mundo para que “por ele tenhamos acesso a Deus”, como diz a Carta aos Romanos (5, 2). Deste modo, vivendo familiarmente entre as pessoas, era conveniente que infundisse em todos a confiança para dele se aproximarem. Assim se lê: ”Enquanto estava à mesa na casa de Mateus, vieram muitos publicanos e pecadores e sentaram-se à mesa, junto com Jesus e os seus discípulos” (Mt 9, 10). E Jerônimo explica: “Vendo que o publicano, convertido de seus pecados, alcançou a penitência, eles também não perderam a esperança da salvação”.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1. Cristo, por sua humanidade, quis manifestar sua divindade. Por isso, convivendo com os homens, o que é próprio de um homem, manifestou a todos sua divindade, pregando e fazendo milagres, vivendo entre os homens inocente e santamente.

2. Como se disse na II Parte, em princípio, a vida contemplativa é melhor do que a vida ativa, que se ocupa de ações corporais. Por outro lado, a vida ativa, pela qual se transmite aos outros, pela pregação e o ensino, o que se contemplou, é mais perfeita do que a vida que apenas contempla, pois que supõe uma abundância de contemplação. Por isso, Cristo escolheu a vida ativa.

3. A ação de Cristo é nossa instrução. Por isso, para dar exemplo aos pregadores de que nem sempre devem procurar estar em público, o próprio Senhor se afastou às vezes da multidão. E o fez por três razões. Às vezes, para descanso corporal. No Evangelho de Marcos se lê que o Senhor disse aos discípulos: “Vinde a sós para um lugar deserto e descansai um pouco. Havia, de fato, tanta gente chegando e saindo que não tinham nem tempo para comer (6, 31). Às vezes, por causa da oração. Lê-se no Evangelho de Lucas: “Naqueles dias Jesus foi à montanha para orar e passou a noite toda em oração a Deus” (6, 12). Ambrósio acrescenta que “por seu exemplo Cristo nos forma para as exigências da virtude”. Às vezes, finalmente, para nos ensinar a evitar o favor humano. Sobre o que diz o Evangelho de Mateus: “Vendo Jesus as multidões, subiu à montanha” (5, 1), afirma Crisóstomo: “Permanecendo não na cidade e na praça, mas na montanha e na solidão, Cristo nos ensinou a não fazer nada por ostentação e a evitar o tumulto, especialmente quando é necessário refletir sobre assuntos importantes”.

Fonte: ST III, 40, 1.

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