Tomás responde: Fomos libertados do pecado pela paixão de Cristo?

Parece que não fomos libertados do pecado pela paixão de Cristo:

1. Na verdade, cabe a Deus libertar do pecado, conforme diz Isaías: “Sou eu que apago, em consideração a mim, as tuas iniqüidades” (43, 25). Ora, Cristo não sofreu como Deus, mas como homem. Logo, a paixão de Cristo não nos libertou do pecado.

2. Além disso, o que é corporal não tem ação sobre o que é espiritual. Ora, a paixão de Cristo é corporal, ao passo que o pecado só pode estar na alma, que é espiritual. Logo, a paixão de Cristo não pôde nos limpar do pecado.

3. Além disso, ninguém pode ser libertado de um pecado que ainda não cometeu e que só no futuro vai cometer. Ora, como depois da paixão de Cristo foram cometidos muitos pecados e diariamente ainda o são, parece que não somos libertados do pecado pela paixão de Cristo.

4. Além disso, afirmada uma causa suficiente, nada mais se exige para produzir um efeito. Ora, para a remissão dos pecados, fazem-se ainda outras exigências, como o batismo e a penitência. Logo, parece que a paixão de Cristo não é causa suficiente da remissão dos pecados

5. Ademais, diz o livro dos Provérbios: “O amor encobre todas as faltas” (10, 12) e “pela misericórdia e pela fé é que se purificam os pecados” (15, 27). Ora, há muitas outras coisas em que temos fé e que provocam o amor. Logo, a paixão de Cristo não é a causa própria da remissão dos pecados.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz o livro do Apocalipse: “Amou-nos e nos purificou de nossos pecados por seu sangue” (1, 5).

RESPONDO. De três modos a paixão de Cristo é causa própria da remissão dos pecados.

Primeiro, por provocar nosso amor, pois, como diz a Carta aos Romanos: “Nisso Deus prova o seu amor para conosco: Cristo morreu por nós quando ainda éramos inimigos” (5, 8-9). Ora, pelo amor conseguimos o perdão dos pecados, conforme o Evangelho de Lucas: “Seus pecados tão numerosos foram perdoados, porque ela mostrou muito amor” (7, 47).

Segundo, a paixão de Cristo causa a remissão dos pecados por redenção. Uma vez que ele próprio é nossa cabeça, por sua paixão, que suportou com amor e obediência, ele nos libertou dos pecados, a nós que somos seus membros, como que pelo preço de sua paixão, do mesmo modo que um homem, por alguma boa obra feita com suas mãos, redimir-se-ia de um pecado que tivesse cometido com os pés. Pois, assim como o corpo natural é um só, formado pela diversidade dos membros, também toda a Igreja, que é o corpo místico de Cristo, é considerada como uma só pessoa com sua cabeça, que é Cristo.

Terceiro, a paixão causa a remissão dos pecados por eficiência: porquanto a carne, na qual Cristo suportou a paixão, é instrumento da divindade, de modo que seus sofrimentos e ações agem por força divina para banir o pecado.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1. Embora Cristo não tenha sofrido como Deus, sua carne é instrumento da divindade. Por isso, sua paixão tem certo poder divino de expulsar os pecados.

2. A paixão de Cristo, embora corporal obtém poder da divindade, à qual a carne está unida como instrumento e, segundo esse poder, a paixão de Cristo é causa da remissão dos pecados.

3. Com sua paixão, Cristo nos libertou de modo causal, ou seja, estabeleceu a causa de nossa libertação, causa pela qual pudessem ser remidos em qualquer momento todos os pecados, passados, presentes e futuros; como um médico que preparasse um remédio com o qual pudesse sarar qualquer doença, mesmo no futuro.

4. Uma vez que a paixão de Cristo foi como que a causa universal precedente da remissão dos pecados, é necessário que seja aplicada a cada um para purificar os pecados pessoais. Ora, isso se dá pelo batismo, pela penitência e pelos demais sacramentos, que buscam seu poder na paixão de Cristo.

5. Também pela fé aplica-se a nós a paixão de Cristo para que participemos de seus frutos, conforme a Carta aos Romanos: “Foi a ele que Deus destinou para servir de expiação por seu sangue, por meio da fé” (3, 25). Ora, a fé com o qual nos purificamos do pecado não é uma fé informe, que pode existir até com o pecado; mas é uma fé formada pelo amor; assim, a paixão de Cristo nos será aplicada, não apenas em nossa mente, mas também em nossos afetos. E também por esse modo, perdoam-se os pecados, pela força da paixão de Cristo.

Fonte: Suma Teológica, III, 49, 1.

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