Bizâncio cismática caminha para a queda (II)

Conquista de Constantinopla pelo Cruzados em 1204 – Séc. XIII
Clique aqui para ler a parte I

A anarquia feudal alcança Bizâncio

O período que se seguiu ao cisma foi, para Bizâncio, um dos piores da sua história. Enquanto os basileus se sucediam rapidamente no trono – treze em quarenta anos -, terminando quase sempre o seu reinado por uma abdicação precipitada, quando não no meio de suplícios, desenrolava-se um drama interior em que estava em jogo a vida do Império, Havia muito tempo que se vinham manifestando as ambições da aristocracia militar e o sistema feudal surgia também no Oriente. Chefes de guerra e grandes administradores tinham um único desejo: tornarem-se proprietários dos domínios confiados à sua guarda. Os imperadores macedônios tinham sido bastante fortes para lhes imporem uma barreira, mas, quando os seus herdeiros fraquejaram, vieram a revolta, a guerra civil e a anarquia.

Durante vinte e cinco anos, os verdadeiros condutores do jogo foram esses aristocratas poderosos e cobertos de glória que, tendo desempenhado um papel de primeiro plano nos campos de batalha, achavam que deviam colher os benefícios das suas proezas: os Focas, os Comnenos, os Escleros, os Diógenes, os Botaniates e os Ducas. A eles se uniam os chefes mercenários que Bizâncio tomava ao seu serviço. Nos planaltos da Anatólia, todos encontravam reservas – heteróclitas quanto à origem – de guerreiros fanaticamente devotados aos seus chefes e dispostos a tudo, desde que os recompensassem bem. Invejando-se uns aos outros, prontos a lutar entre si, tão pouco firmes em matéria de fidelidade que se entendiam por vezes com os inimigos de fora para realizarem as suas ambições, estes guerreiros disputavam a tal ponto o Império entre si que o invasor podia dominá-los facilmente.

Que fariam os imperadores para se oporem a essa ameaça? Com exceção de dois, Isaac Comneno e Romano Diógenes, que continuaram a ser verdadeiros soldados no trono, todos seguiram a política insana estimulada por Basílio II: minar sistematicamente o exército. O poder pertence ao clã dos eunucos do Palácio e aos intelectuais – filósofos ou teólogos -, dos quais o menos que se pode dizer é que pareciam muito fracos para dirigirem o Estado em circunstâncias tão graves; entre eles, ocupava um lugar de relevo Miguel Psellos, antigo cobrador de impostos que se tornara mestre de filosofia, preceptor e conselheiro dos imperadores. Esses mandarins empenharam-se em minar os guerreiros, suprimir os créditos militares e desarmar a frota. A nobreza parecia perigosa? Propuseram substituí-la por uma hierarquia de funcionários cujos postos – incluído o do imperador! – se preencheria por meio de exames.

Os guerreiros não tiveram o menor escrúpulo em opor-se pelas armas a esses homens cultivados. Não se podem contar as revoltas, sedições e “pronunciamentos” que eclodiram durante esses vinte e cinco anos. Não havia chefe de tropa que não acalentasse o desejo de arranjar um belo feudo para poder zombar do basileu. Alguns dentre eles foram heróis de aventuras épicas e picarescas, como esse Roussel de Bailleul, o mais pitoresco de todos eles, normando vindo da França, companheiro de Roberto Guiscard na Sicília, e que, tendo-se posto a serviço do imperador de Bizâncio, atraiçoou-o depois, negociando com os turcos e começando a trabalhar por conta própria. Saqueava indiferentemente muçulmanos e cristãos, e por pouco não tomou Constantinopla. Capturado uma primeira vez, conseguiu libertar-se mediante uma enorme “gorjeta” e aliou-se aos piores ladrões turcos que, por fim, o traíram e o entregaram ao seu adversário: uma vida bem movimentada e característica dos costumes do tempo…

No meio de toda essa confusão, os imperadores sucediam-se no Palácio Sagrado. Nem todos eram incapazes; alguns eram até inteligentes e corajosos, mas faltava-lhes a energia sobre-humana que seria preciso para por fim a tantas ambições turbulentas. A Constantino Monômaco, que morreu de decrepitude em 1055, sucedeu Miguel VI (1056-1057), velho maníaco que se tornou célebre pelo decreto que obrigava os seus súditos a usar cabeleiras. Varrido por uma sedição, apressou-se a raspar a cabeça e a procurar um mosteiro para evitar o pior. Seu vencedor, Isaac Comneno (1057-1059), primeiro membro dessa ilustre família a usar a púrpura, teria podido restabelecer a ordem, como soldado que era, e foi ele realmente que libertou o Estado das intrigas do patriarca Cerulário. Mas esse papel de gendarme agradava pouco à sua alma mística e neurastênica, e foi também para um convento. Seu amigo Constantino X Ducas (1059-1067) era do tipo letrado; trabalhou, portanto, contra o exército e teve a sorte de morrer a tempo de não ver as consequências do seu antimilitarismo desmedido. Mas, depois dele, Romano IV Diógenes (1067-1071), bom soldado que a viúva do antecessor se apressou a desposar para ter assegurada a sua proteção, pagou o tributo daquela política insensata; o exército, cujo comando assumira corajosamente contra os turcos, foi vencido em Mantzikert e ele foi feito prisioneiro. A partir desse momento, acelerou-se a marcha para o abismo. Enquanto Miguel VII (1071-1078), que se desonrara mandando supliciar atrozmente o sogro, retomava a política antimilitarista, os inimigos arrancavam a Bizâncio pedaços da carne viva em todas as fronteiras. Era a época em que Roussel de Bailleul praticava as suas proezas, imitado por muitos outros nos quatro cantos do império que desmoronava. Quando, em 1078, eclodiu uma revolta geral dos exércitos, Miguel VII foi espoliado do trono e da mulher por um dos seus guerreiros que ambicionavam a púrpura: Nicéforo III Botaniate (1078-1081). Mas a situação era tal que este corajoso soldado não foi suficiente para moralizar o exército e ao mesmo tempo restabelecer a ordem no Estado. As sedições continuaram cada vez em maior número. Quando o mais brilhante dos generais anatolianos, Aleixo Comneno, marchou sobre Constantinopla, o Botaniate apressou-se também a buscar refúgio num mosteiro. O seu vencedor era, por fim, um homem forte, inteligente, hábil, decidido a tirar o seu país da lama sangrenta em que afundava.

Não sem tempo, porque, vindo dos quatro pontos cardeais, já se erguia avidamente um inimigo a perder de vista, como costuma sempre acontecer com os Estados fracos.

Daniel-Rops, A Igreja das Catedrais e das Cruzadas, Quadrante, págs 442-444)

Leia também: Bizâncio cismática caminha para a queda – PARTE I

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