Bizâncio cismática caminha para a queda (I)

Abraço entre o Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras I
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No dia seguinte ao cisma

Enquanto o Ocidente levantava o monumento de uma das civilizações mais fecundas que já existiram, era bem diferente o espetáculo oferecido pelo Oriente. Não que Bizâncio tivesse deixado de ser a Bizâncio que herdara as glórias de Teodósio e Justiniano, o baluarte de muralhas e de códigos que enfrentara a barbárie desordenada, a capital econômica, espiritual e ao mesmo tempo política em que palpitava o coração do mundo mediterrâneo. Mas, embora ainda digno de admiração e respeito sob muitos aspectos, o vasto Império que a dinastia macedônia acabava de dirigir com pulso tão firme já não dava, em meados do século XI, a impressão de possuir uma vitalidade profunda. O grande navio seguia o seu curso sacudido por inúmeras tempestades: o passado seria, por si só, capaz de garantir o futuro?

Um acontecimento capital acabava de abater-se pesadamente sobre o seu destino: o Cisma de 1054. O lento desentendimento que se insinuara no decorrer dos séculos entre as duas metades da Igreja tinha múltiplas causas: evolução diferente dos ritos e práticas, mais fixos e uniformes no Oriente, mais variados no Ocidente; desacordos teológicos cuja importância os dois campos aumentavam a seu bel-prazer, tal como o que havia provocado a introdução da expressão Filioque no Credo por parte dos ocidentais; má vontade do patriarca de Constantinopla em reconhecer o primado da Sé de Roma, sobretudo a partir do momento em que se tornara o único que contava no Oriente, pois os territórios dos outros patriarcas tinham sido ocupados pelo Islã (Jerusalém e Alexandria) ou vinham sendo fortemente atacados por ele (Antioquia); e, finalmente, desprezo não dissimulado dos bizantinos, astutos e letrados, pelos bárbaros do Ocidente.

A ruptura foi provocada pela ambição de um homem: Miguel Cerulário, patriarca de Constantinopla. Inteligente até ao excesso, de uma sutileza que sabia mascarar uma firmeza de aço, esse homem que, na sua juventude, desejara calçar as sandálias de púrpura do Basileu, uma vez clérigo, transferiu para o plano eclesiástico os sonhos da sua ambição: ser o chefe único de uma igreja livre de qualquer controle e na qual se incluíssem todas as dioceses do Oriente. Para atingir esse fim, não teve o menor escrúpulo em lançar mão de todos os meios: habilidades suspeitas, perfídias e violências. Insistindo no que aparentemente separava os cristãos, chamando heresias às mínimas diferenças de expressão, qualificando como escandalosos costumes tão inocentes como o de cortar a barba, trabalhou habilmente para introduzir a cizânia entre as duas partes da Cristandade. O erro dos ocidentais, e principalmente do Papa Leão IX, foi não se aperceberem de que o patriarca desejava a ruptura e de que toda a manifestação inoportuna de autoridade o favorecia. Enviando como legados a Bizâncio dois rudes lorenos, desconhecedores das sutilezas bizantinas – o cardeal Humberto, o célebre reformador, e Frederico de Lorena, futuro papa “gregoriano” -, Roma precipitou os acontecimento. A astúcia e a cautela opuseram-se à falta de moderação e de jeito, sob o olhar indiferente do imperador Constantino IX Monômaco, mais preocupado com a literatura e os encantos femininos do que com discussões teológicas. Quando, em seis de julho de 1054, o Cardeal Humberto, julgando dobrar Cerulário, depôs sobre o altar de Santa Sofia o texto de uma excomunhão, deu a vitória ao patriarca. Valendo-se da indignação provocada por esse gesto, o ambicioso pôde reunir todo ou quase todo o Oriente, desde o Basileu ao último dos calafates, contra esse Roma bárbara e herética que vinha insultar na sua casa os príncipes da santa igreja bizantina. E, em 24 de julho um sínodo oriental promulgou cânones que consagravam a ruptura.

Essa ruptura foi fatal? De maneira nenhuma. Certamente, as diferentes entre gregos e latinos eram profundas; as sensibilidades eram dessemelhantes. As atitudes, espiritual e moral no Ocidente, simbolista e escatológica no Oriente, não combinavam. No entanto, os vínculos estabelecidos ao longo dos séculos por trinta gerações uniam ainda as duas partes da Cristandade. No princípio do século XI, pudera-se até constatar uma tendência para a aproximação; o duplo perigo dos normandos e dos turcos, a freqüência cada vez maior das peregrinações à Terra Santa, um melhor conhecimento no Ocidente das origens orientais da espiritualidade, tudo isso contribuía para a unidade. Constantino IX só manifestava respeito e boas intenções para com o Papa de Roma. Por que, então, eclodiu o drama? É preciso reconhecer aqui um desses casos, mais freqüentes do que se julga, em que a personalidade de um homem e as suas intenções são decisivas e podem obliterar os destinos durante séculos.

As excomunhões foram retiradas pelas duas Igrejas em 1966 pelo Papa Paulo VI e pelo Patriarca Atenágoras I

Pouco importa que o responsável pelo cisma tenha parecido sofrer, já nesta terra, um castigo sobrenatural, visto que, envolvido de perto na conspiração que levou Isaac Comneno ao poder, mas logo indisposto com o Basileu, foi preso por sua ordem, difamado por panfletistas pagos por ele, e tão oprimido por sevícias que veio a morrer. Pouco importa também que a igreja oriental, pouco depois, reconhecendo nele o arauto da sua vontade de independência, tenha feito dele um “santo”. O rasgão na “túnica inconsútil” estava feito; nove séculos e muitos esforços generosos não puderam remediar até hoje uma situação que nenhum coração cristão poderá encarar de ânimo leve, e cujo peso, embora as responsabilidades pareçam desiguais, é suportado coletivamente por todos os filhos de Cristo.

Perante um acontecimento que, na perspectiva do tempo, tem uma importância dramática, qual foi a reação dos contemporâneos? Aperceberam-se eles de que se tratava de um corte doloroso e desastroso que se introduzia no cristianismo? Se Miguel Cerulário tinha querido que fosse assim, a simples idéia do cisma perturbava muitas almas fiéis. Não podemos ler sem emoção a carta que o santo patriarca Pedro de Antioquia escreveu ao seu colega de Constantinopla: “Peço-te”, escreve ele, “suplico-te, adjuro-te, e em pensamento lanço-me aos teus joelhos sagrados, rogando-te que a tua divina Beatitude ceda a este golpe e se dobre às circunstâncias. Tremo só de pensar que, querendo curar esta ferida, ela pode degenerar em coisa pior, no cisma, ou que, procurando erguer o que está abatido, se prepare uma queda ainda maior. Considera o que resultará evidentemente de tudo isto, quer dizer, desta imensa divergência, que acabará por separar de nossa santa Igreja essa sé magnânima e apostólica. A maldade passará a invadir a vida e o mundo inteiro será subvertido. Se os dois reinos da terra estiverem mergulhados na intranqüilidade, por toda a parte haverá lágrimas abundantes; os nossos exércitos em parte alguma serão vitoriosos”.

Palavras admiráveis e proféticas! Mas não foi apenas Pedro de Antioquia quem se exprimiu desta forma; Jorge o Hagiorita declarava perante o imperador Constantino Ducas, em 1064, que a fé dos latinos não sofrera qualquer desvio e que o uso do pão fermentado no Oriente só se tornara necessário para provar a certos extraviados que o corpo do Senhor possuía alma e razão, respectivamente simbolizadas pelo fermento e pelo sal misturados à farinha. João II, metropolita de Kiev, reconhecia que os erros de que os ocidentais eram acusados não feriam os dogmas. Teofilacto, arcebispo de Ácrida na Bulgária, no seu tratado Sobre os erros dos latinos, dizia formalmente que esses “erros” não podiam justificar um cisma, criticava duramente a orgulhosa pretensão dos teólogos orientais e afirmava que, no fundo da questão, havia sobretudo rivalidades pessoais ou raciais.

Mas, ao lado dessas vozes serenas, quantas outras injustas e apaixonadas! O fosso do cisma foi aprofundado, como por prazer, pela maldade e pela estupidez. Houve, em Bizâncio, homens, teólogos, que, incapazes de compreender o Ocidente, ou não desejando compreendê-lo, continuaram o trabalho de Miguel Cerulário, acumulando calúnias e acusações sem fundamento. Basta consultar um dos inumeráveis tratados que apareceram então para medir a sua fraqueza e tantas vezes a sua abjeção. Os agravos articulados nessa espécie de libelo são em número de vinte e oito, nem um a menos! Os seis erros maiores, tirados da argumentação de Fócio, referem-se aos ázimos (pão fermentado ou não? Grave questão…), à processão do Espírito Santo, à Confirmação separada do Batismo, às infrações ao jejum da Quaresma e ao do sábado, e, por fim, ao celibato dos padres. Mas, a essas acusações fundamentais, os panfletários acrescentam atabalhoadamente outras, sempre sob o sopro da mesma indignação. Durante os ofícios, os padres latinos têm uma compostura pouco conveniente, levam a luxúria ao ponto de raspar a barba em vez de deixá-la crescer, e o celebrante chega ao altar com a cabeça coberta, o que é verdadeiramente escandaloso; além disso, os fiéis ousam benzer-se com cinco dedos, quando todos sabem que devem fazê-lo apenas com três; e, finalmente, os bispos do Ocidente, quando morrem, são expostos no caixão sem as mãos juntas… E é por bagatelas desse gênero que o Oriente passará a julgar o Ocidente…

Bento XVI e o  Patriarca Ortodoxo de Jerusalém Teófilo III

Pode-se dizer que, na ocasião em que circulavam esses panfletos, a realidade histórica do cisma foi compreendida pelos contemporâneos? Parece que não. Entre os historiadores bizantinos, nem o marechal palatino João Skylitzés, nem o magistrado Miguel de Atalia, nem sequer o grande letrado Miguel Psello, que se notabilizou pela magnífica palinódia de ter sido sucessivamente o acusador público de Miguel Cerulário e o seu panegirista oficial, falam do cisma chamando-o pelo seu nome. Será preciso esperar mais de cento e cinqüenta anos para que um cronista evoque “os conflitos que surgiram entre o patriarca Miguel e os latinos”. Mas se esta omissão, que faz pensar numa conspiração do silêncio, pode ser explicada pelo inveterado costume que os orientais tinham de suscitar querelas teológicas e pela persuasão de que esta era apenas mais uma e não a mais importante de todas, surpreende-nos verificar que no Oriente o episódio foi também mal compreendido. O cardeal Humberto, no relatório que redigiu, afirmava impavidamente que tinha vencido o patriarca e dava a entender que o imperador estava do lado certo. O cardeal Boson, no século XII, chegará a dizer com candura que “o caso que levou os legados a Constantinopla terminou amigavelmente…”. Parece que estamos sonhando. As ilusões só se dissiparam mais tarde, quando a situação surgiu na sua verdadeira perspectiva, ou seja, a de uma terrível convulsão.

Na prática, o cisma não causou uma suspensão de relações entre o Oriente e o Ocidente. O movimento comercial, cada vez mais intenso, atraiu os mercadores italianos a Bizâncio. Genoveses e amalfitanos estabeleceram-se no Corno de Ouro, logo seguidos pelos venezianos quando o crisóbulo imperial de 1082 abriu aos navios da Sereníssima República o acesso isento de taxas alfandegárias a todos os portos bizantinos. Numerosos ocidentais entraram a serviço do Basileu como soldados mercenários: alemães, ingleses e normandos sobretudo, sempre apaixonados por belas aventuras longínquas, como esse Roussel de Bailleul de quem voltaremos a falar. É espantoso o número de casamentos que uniram as famílias reinantes de uma e outra igreja. Jaroslav, grande kniaz de Kiev, era um verdadeiro “avô” da Europa coroada: tio de Filipe I da França e de Olavo III da Noruega, sogro de Gita (filha de Haroldo da Inglaterra), de Salomão da Hungria e de Henrique IV da Alemanha, antes de que as suas bisnetas desposassem os soberanos da Dinamarca e da Noruega. Para tentar reconciliar o seu trono com os normandos, o Basileu Miguel VII prometerá seu filho em casamento à filha de Roberto Guiscard e, quando Andrônico chegar ao trono devido ao assassinato de Aleixo II, desposará imediatamente a pequena Ana da França, filha de Luís VII, que fora noiva do seu predecessor. A realeza capetíngia guardará uma recordação destas relações dinástica entre o Oriente e o Ocidente: o Evangeliário de Reims, que servirá para a sagração real, não será outro senão o livro trazido pela rainha Ana, quando do seu casamento com o rei Henrique I, e o prenome de Filipe, bizantino de origem, será adotado pela família da França até os nossos dias.

Mesmo no plano religioso, os contatos sobreviveram ao cismo. O itinerário dos peregrinos para a Terra Santa incluía uns dias de permanência em Constantinopla, para que se pudessem venerar, entre muitas notáveis relíquias, o manto, a túnica, o véu e o cinto da mãe de Deus. Na capital, houve igrejas de rito romano que continuaram abertas e estabeleceu-se até um convento clunicense: o da Caridade. Mais ainda: houve latinos que ouviram o chamamento da “Grande Montanha” e fundaram no Monte Athos um mosteiro sob a proteção especial do Basileu. Em sentido inverso, os orientais estavam representados no Ocidente pelos melhores dos embaixadores: os santos. Lembremo-nos do traslado das relíquias de Santo Antão para as margens do Ródano e na dos restos de São Mamas para Langres, que devia orgulhar-se deles. E, entre os inúmeros monges bizantinos que vinham praticar as suas devoções no Monte Cassino ou em Roma, quem não conhece o nome do bom São Nicolau, que peregrinou por toda a Itália arrastando uma pesada cruz e gritando: Kyrie Eleison!, antes de morrer em 1094 em Trani, na costa do Adriático? E foi a Igreja do Ocidente que, imediatamente após a sua morte, o colocou sobre os altares.

No entanto, a dissensão entre o Oriente e o Ocidente não cessou de crescer. Desconfiança recíproca, hostilidade latente, desprezo, inveja e incompreensão… Quem se prejudicou com essa ruptura? Bizâncio principalmente. Numa época em que a fé estava na base de tudo, o cisma não podia deixar de provocar conseqüências no plano da grande política: destruiu toda a possibilidade de entendimento sólido entre a Europa do Basileu e as jovens forças do Ocidente. Isso foi tanto mais prejudicial quando Bizâncio, secretamente minada pelos vermes de decadência, tinha de retomar nessa ocasião o papel de baluarte da Europa perante a Ásia em marcha, papel que desempenhara durante séculos e que agora já não podia assumir sozinha.

(Daniel-Rops, A Igreja das Catedrais e das Cruzadas, Quadrante, 1993, págs 437-442)

Leia também: Bizâncio cismática caminha para a queda – PARTE II

 

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