Deus e a Ciência (ou Cientistas x Metafísica)

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CalvinMath

“Não precisamos da ciência para nos dizer que o universo é de fato misterioso. Os homens sabem disso desde os primórdios da raça humana. A verdadeira e adequada função da ciência é, pelo contrário, fazer tanto quanto possível que o universo nos pareça cada vez menos misterioso. … O universo da ciência como ciência consiste exatamente naquela parte do universo total à qual, graças à razão humana, os mistérios foram retirados. … Então, como é possível que um cientista se possa sentir justificado ao designar este universo como “universo misterioso”?”
“Todos concordarão que tudo isso é muito misterioso, mas a questão permanece: será isto ciência?”
“Quando lhes perguntam por que existem tais seres organizados, os cientistas respondem: acaso. Qualquer pessoa pode executar por sorte uma jogada brilhante numa mesa de bilhar; mas quando um jogador faz uma série de cem, é uma justificação muito fraca dizer que ele teve sorte.”
“Se os cientistas, falando como cientistas, não tem qualquer resposta inteligível para este problema, por que é que alguns deles parecem tão interessados em dizer disparates sobre o assunto? A razão é simples e desta vez podemos ter a certeza de que o acaso não tem nada a ver com a sua obstinação. Preferem dizer qualquer coisa do que atribuir existência a Deus partindo do princípio de que existe um objetivo no universo.”
“Por que é que esses seres eminentemente racionais, os cientistas, preferem deliberadamente às noções simples de desígnio ou intencionalidade na natureza, as noções arbitrárias de força cega, sorte, emergência, variação súbita e outras semelhantes? Simplesmente porque preferem uma completa ausência de inteligibilidade em vez da presença de uma inteligibilidade não científica.”
“O mundo que perdeu o Deus cristão só pode assemelhar-se ao mundo que ainda não o encontrou. Tal como o mundo de Tales e de Platão, o nosso mundo moderno está “cheio de deuses”. Nele existem a cega Evolução, a  lúcida Ortogénese, o benevolente Progresso e  outros cujo nome é mais aconselhável não mencionar. Para que ferir desnecessariamente os sentimentos dos homens que, hoje, os transformam   num culto?”

Deus e a Ciência

Quando um homem dá consigo a interrogar-se sobre a existência de um ser como Deus, ele não está consciente de estar a formular um problema científico nem espera dar-lhe uma solução científica. Os problemas científicos estão todos relacionados com o conhecimento do que as coisas realmente são. Uma explicação científica ideal do mundo seria uma explicação racional exaustiva daquilo que o mundo realmente é; mas o porquê da existência da natureza não é um problema científico, porque sua resposta não é susceptível de verificação empírica. A noção de Deus, pelo contrário, aparece-nos sempre na história como resposta a algum problema existencial, ou seja, como o porquê de determinada existência. Os deuses gregos eram constantemente invocados para explicar diversos “acontecimentos” da história dos homens e das coisas. Uma interpretação religiosa da natureza nunca se preocupa com o que as coisas são – isto é um problema para os cientistas – mas preocupa-se muito com as questões pelas quais as coisas são aquilo que são, e até mesmo por que razão elas acontecem. O Deus judaico-cristão que nos é apresentado na Bíblia está aí imediatamente postulado como a explicação última para a existência do homem, para a condição presente do homem na terra, para todos os acontecimentos sucessivos que constituem a história do povo judeu, bem como para estes acontecimentos cruciais: a Encarnação de Cristo e a Redenção do homem pela Graça. Qualquer que seja o seu valor essencial, trata-se de respostas existenciais a perguntas existenciais. Como tal, nunca podem ser traduzidas em termos de ciência, mas apenas em termos de uma metafísica existencial. Por isso, estas duas conseqüências imediatas: que a teologia natural está sujeita não ao método da ciência positiva mas ao método da metafísica, e que pode interrogar corretamente os seus próprios problemas apenas no quadro da metafísica existencial.

Destas duas conclusões, a primeira está condenada a permanecer muito impopular. Para dizer toda a verdade, parece perfeitamente absurdo dizer, e ridículo manter, que os problemas metafísicos mais elevados não dependem de forma alguma das respostas dadas pela ciência às suas próprias questões. O ponto de vista mais comum sobre este assunto está bem expresso nas palavras de um astrônomo moderno: “Antes dos filósofos terem direito a falar, deveria ser pedido à ciência para dizer tudo o que sabe sobre a verificação de fatos e de hipóteses provisórias. E só então pode a discussão passar legitimamente para o reino da filosofia”. Concordo que isto me parece bastante mais sensato do que aquilo que eu próprio disse. Mas quando as pessoas se comportam como se aquilo que eu disse fosse falso, o que acontece? John Toland decidiu discutir problemas religiosos recorrendo a um método que foi buscar à filosofia natural. O resultado foi o seu livro, que já mencionei: Christianity Not Mysterious. Ora, se o Cristianismo não é misterioso, o que é? Em 1930, na sua conferência Rede, proferida perante a Universidade de Cambridge, Sir James Jeans, decidiu abordar os problemas filosóficos à luz da ciência contemporânea. O desfecho final foi o seu livro mais popular: The Mysterious Universe. Mas se o universo da ciência é misterioso, o que não o é? Não precisamos da ciência para nos dizer que o universo é de fato misterioso. Os homens sabem disso desde os primórdios da raça humana. A verdadeira e adequada função da ciência é, pelo contrário, fazer tanto quanto possível que o universo nos pareça cada vez menos misterioso. A ciência fá-lo e fá-lo de forma magnífica. Qualquer rapaz de dezesseis anos, em qualquer das nossas escolas, sabe hoje mais sobre a estrutura física do mundo do que São Tomás de Aquino, Aristóteles, ou Platão alguma vez souberam. Pode dar explicações racionais de fenômenos que outrora pareciam às maiores mentes mistérios intrincados. O universo da ciência como ciência consiste exatamente naquela parte do universo total à qual, graças à razão humana, os mistérios foram retirados.

Então, como é possível que um cientista se possa sentir justificado ao designar este universo como “universo misterioso”? Será porque o verdadeiro progresso da ciência o coloca perante fenômenos cada vez mais difíceis de observar, cujas leis são cada vez mais difíceis de formular? Mas o desconhecido não é necessariamente um mistério; e a ciência desenvolve-se naturalmente com base no pressuposto de que não o é, porque é pelo menos cognoscível, mesmo que ainda não o conheçamos. A verdadeira razão por que este universo parece misterioso para alguns cientistas é que, ao confundirem questões existenciais, ou seja, metafísicas, com questões científicas, eles pedem à ciência para lhes responder. Naturalmente não obtém quaisquer respostas. Então ficam confusos e dizem que o universo é misterioso.

A cosmogonia científica de Sir James Jeans apresenta uma coleção esclarecedora dessas perplexidades. O seu ponto de partida é a real existência de inumeráveis estrelas “vagueando pelo espaço” a distâncias tão grandes umas das outras “que é um acontecimento de uma raridade quase inimaginável que uma estrela chegue alguma vez perto de outra estrela”. Contudo, temos de “acreditar” que “há cerca de dois mil milhões de anos, este acontecimento raro tenha tido lugar e que uma segunda estrela, vagueando cegamente pelo espaço”, tenha por acaso chegado tão perto do sol que acabou por dar origem a uma vaga enorme na sua superfície. Esta enorme vaga finalmente explodiu e os seus fragmentos, ainda “girando em volta do seu pai-sol… são os planetas, grandes ou pequenos, sendo a nossa terra um deles”. Estes fragmentos ejetados do sol arrefeceram gradualmente; “com o tempo, não sabemos como, quando ou porquê, um desses fragmentos em arrefecimento deu origem à vida”. Daí a emergência de um caudal de vida que culminou no homem. Num universo em que o espaço é mortalmente frio e grande parte da matéria mortalmente quente, o aparecimento de vida era altamente improvável. Não obstante, “tropeçamos neste universo, se não exatamente por engano, pelo menos como resultado do que pode ser apropriadamente descrito como acidente”. Segundo a conclusão de Sir James Jeans, foi esse “o modo surpreendente através do qual, tanto quanto a ciência presente nos pode informar, passamos a existir”.

Todos concordarão que tudo isso é muito misterioso, mas a questão permanece: será isto ciência? Mesmo que, como o seu autor evidentemente faz, as tomemos por “hipóteses provisórias”, poderemos considerar essas hipóteses como sendo, na verdadeira acepção da palavra, científicas? Será científico explicar a existência do homem através de uma série de acidentes, em que cada um deles é mais improvável do que o outro? A verdade é simplesmente que, sobre o problema da existência do homem, a astronomia moderna não tem rigorosamente nada a dizer. E a mesma conclusão é válida se à astronomia moderna acrescentarmos a física moderna. Quando, depois de descrever o mundo físico de Einstein, Heisenberg, Dirac, Lemaitre e Louis de Broglie, Sir James Jeans mergulha finalmente naquilo que, pelo menos desta vez, sabe serem “as águas profundas da metafísica”, qual a conclusão a que acaba por chegar? Que embora muitos cientistas prefiram a noção de um “universo cíclico, o ponto de vista científico mais ortodoxo” é que o universo deve a sua forma presente a uma “criação” e que “a sua criação deve ter sido um ato de pensamento”. De acordo. Mas o que tem estas respostas a ver com Einstein, Heisenberg ou com a justamente famosa galáxia de físicos modernos? As duas doutrinas de um “universo cíclico” e de um Pensamento supremo foram formuladas pelos filósofos pré-socráticos, que nada sabiam sobre o que Einstein iria dizer vinte e seis séculos depois deles. A “teoria científica moderna”, acrescenta Jeans, “obriga-nos a pensar no criador e trabalhar fora do tempo e do espaço, que também fazem parte da sua criação, tal como o artista que está fora da sua tela”. Por que é que a teoria moderna nos obriga a dizer o que já foi dito, não só por Santo Agostinho, que o nosso cientista cita, mas também por inúmeros teólogos cristãos que não conheciam outro mundo para além do de Ptolomeu? Claramente, a resposta filosófica de Sir James Jeans ao problema da ordem do mundo não tem absolutamente nada a ver com a ciência moderna. O que não é de espantar, uma vez que também não tem absolutamente nada a ver com o conhecimento científico.

Se analisarmos mais de perto, a questão inicial colocada por Jeans levou-o imediatamente, não apenas para águas profundas, mas, cientificamente falando, para longe de qualquer hipótese de sondagem.

Perguntar por que, de uma infinidade de combinações possíveis de elementos físico-químicos, surgiu o ser livre e pensante a que chamamos homem, é procurar a causa devido à qual o complexo de energias físicas que é o homem, realmente é ou existe. Por outras palavras, é investigar as causas possíveis da existência de organismos vivos e pensantes sobre a terra. A hipótese de que substâncias vivas possam vir a ser amanhã produzidas por bio-químicos nos seus laboratórios é irrelevante para a questão. Se alguma vez um químico conseguir produzir células vivas ou algumas espécies de organismos elementares, nada será mais fácil para ele do que explicar a razão por que existem esses organismos. A sua resposta será: fui eu que os fiz. A nossa interrogação não é de modo algum: serão os seres vivos e pensantes feitos de outra coisa que não elementos físicos? É antes: supondo que, em última análise, eles não são constituídos por mais nada, como poderemos explicar a existência da própria ordem de moléculas que produz aquilo a que chamamos vida e pensamento?

Cientificamente falando, tais problemas não fazem sentido. Se não existissem seres vivos e pensantes, não existiria ciência. Por isso não haveria interrogações. Mesmo o universo científico de matéria inorgânica é um universo estrutural; no que diz respeito ao mundo de matéria orgânica, este apresenta por todo o lado coordenação, adaptação e funções. Quando lhes perguntam por que existem tais seres organizados, os cientistas respondem: acaso. Qualquer pessoa pode executar por sorte uma jogada brilhante numa mesa de bilhar; mas quando um jogador faz uma série de cem, é uma justificação muito fraca dizer que ele teve sorte. Alguns cientistas sabem-no tão bem que substituem a noção de acaso pela noção de leis mecânicas, o que é precisamente o seu oposto. Mas quando chega o momento de explicarem como é que essas leis mecânicas deram origem a seres vivos organizados, são novamente forçados a recorrer ao acaso quanto à razão última que é possível citar. “Os poderes que influem no cosmos”, diz Julian Huxley, “são, ainda que unitários, contudo subdivisíveis; e, embora subdivisíveis, estão contudo relacionados. São os vastos poderes da natureza inorgânica, neutros ou hostis ao homem. Porém, deram origem à vida que evolui, cujo desenvolvimento, embora cego e fortuito, se encaminhou no mesmo sentido geral que os nossos desejos e ideais conscientes, dando-nos assim uma sanção externa para as nossas atividades direcionais. Isto, por sua vez, deu origem à mente humana que, no seu decurso, está a mudar o rumo da evolução através da aceleração”, e etc. ad infinitum. Por outras palavras, as únicas razões científicas que podem levar o nosso jogador de bilhar a fazer uma série de cem são o fato de ele não saber jogar bilhar e de todas as hipóteses estarem contra.

Se os cientistas, falando como cientistas, não tem qualquer resposta inteligível para este problema, por que é que alguns deles parecem tão interessados em dizer disparates sobre o assunto? A razão é simples e desta vez podemos ter a certeza de que o acaso não tem nada a ver com a sua obstinação. Preferem dizer qualquer coisa do que atribuir existência a Deus partindo do princípio de que existe um objetivo no universo. Há uma justificação para esta atitude. Tal como a ciência pode destruir a metafísica, também a metafísica pode destruir a ciência. Tendo precedido a ciência no passado, fê-lo muitas vezes ao ponto de evitar a sua ascensão e de bloquear o seu desenvolvimento. Durante séculos, as causas finais foram erradamente tomadas como explicações científicas por tantas gerações de filósofos que hoje muitos cientistas continuam a considerar o receio das causas finais como o princípio do saber científico. A ciência está assim a fazer com que a metafísica sofra pelos séculos em que esta se intrometeu nos assuntos da física e da biologia.

Contudo, em ambos os casos, a verdadeira vítima do conflito epistemológico é apenas uma: a mente humana. Ninguém nega que os organismos vivos parecem ter sido designados ou destinados a cumprir as várias funções relacionadas com a vida. Todos concordam que esta aparência pode ser apenas uma ilusão. Estaríamos dispostos a tomá-la como ilusão se a ciência pudesse explicar o aparecimento da vida através das suas explicações habituais de tipo mecânico, em que nada mais está envolvido para além das relações dos fenômenos observáveis de acordo com as propriedades geométricas do espaço e as leis físicas do movimento. Pelo contrário, o que é mais notável é que muitos cientistas defendem obstinadamente o caráter ilusório desta aparência, embora reconheçam abertamente a sua incapacidade de imaginar qualquer explicação científica para a constituição orgânica de seres vivos. Logo que a física moderna deparou com os problemas estruturais colocados pela física molecular, viu-se confrontada com estas dificuldades. Contudo, os cientistas preferiram introduzir na física as noções não mecânicas de descontinuidade e indeterminação em vez de recorrerem a qualquer coisa como o desígnio. Numa escala muito maior, vimos Julian Huxley explicar ousadamente a existência de corpos organizados pelas mesmas propriedades da matéria que, de acordo com o próprio, tornam infinitamente improvável que esses corpos possam existir. Por que é que esses seres eminentemente racionais, os cientistas, preferem deliberadamente às noções simples de desígnio ou intencionalidade na natureza, as noções arbitrárias de força cega, sorte, emergência, variação súbita e outras semelhantes? Simplesmente porque preferem uma completa ausência de inteligibilidade em vez da presença de uma inteligibilidade não científica.

Parece que estamos a atingir finalmente o âmago deste problema epistemológico. Por muito ininteligível que sejam estas noções arbitrárias, são pelo menos homogêneas relativamente a um encadeamento de interpretações mecânicas. Postuladas no início deste encadeamento ou inseridas nele quando necessário, proporcionam ao cientista as existências de que ele necessita para saber. A sua irracionalidade intrínseca exprime a resistência invencível oposta pela existência a qualquer tipo de explicação científica. Aceitando o desígnio ou a intencionalidade como princípio de explicação possível, um cientista introduziria no seu sistema de leis um elo totalmente heterogêneo relativamente ao resto da cadeia. Ele entrelaçaria as causas metafísicas da existência dos organismos com as causas físicas que tem de atribuir tanto à sua estrutura como ao seu funcionamento. Ainda pior, ele poderia sentir-se tentado a confundir as causas existenciais dos organismos vivos pelas suas causas eficientes e físicas, regressando assim aos velhos tempos em que os peixes tinham barbatanas porque tinham sido feitos para nadar. Ora, pode muito bem ser verdade que os peixes tenham sido feitos para nadar, mas ao sabê-lo, ficamos a saber tanto sobre peixes como sobre aviões ao sabermos que eles são feitos para voar. Se não tivessem sido feitos para voar, não haveria aviões, já que serem máquinas voadoras é a sua própria definição; mas precisamos de pelo menos duas ciências, aerodinâmica e mecânica, para nos explicar como é que eles voam. Uma causa final pressupôs uma existência cuja ciência pode só por si pressupor as leis.

A heterogeneidade destas duas ordens foi notavelmente expressa por Francis Bacon, quando este afirmou, ao falar de causas finais, que “na física, elas não são pertinentes e como obstáculo ao navio, impedindo as ciências de manterem a sua rota de aperfeiçoamento”. A sua esterilidade científica é particularmente completa num mundo como o da ciência moderna, em que as essências foram reduzidas a meros fenômenos e eles próprios reduzidos à ordem daquilo que pode ser observado. Os cientistas modernos vivem ou fingem viver num mundo de meras aparências, em que aquilo que aparece é a aparência do nada. Todavia, o fato de as causas finais serem cientificamente estéreis não implica a sua desqualificação enquanto causas metafísicas e rejeitar respostas metafísicas a um problema apenas porque elas não são científicas é deliberadamente mutilar o potencial de conhecimento da mente humana. Se a única maneira inteligível de explicar a existência de corpos organizados for a de admitir que existe desígnio ou intencionalidade na sua origem, admitamo-lo então, se não como cientistas pelo menos como metafísicos. E como as noções de desígnio e intencionalidade são para nós inseparáveis de pensamento, pressupor a existência de um pensamento como causa da intencionalidade de corpos organizados é também pressupor o fim de todos os fins ou um fim último, ou seja, Deus.

Nem vale a pena dizer que esta é exatamente a conseqüência que os adversários das causas finais pretendem negar. “Intenção”, diz Julian Huxley, “é um termo psicológico; e atribuir intenção a um processo apenas porque os seus resultados são de algum modo semelhantes aos de um processo verdadeiramente intencional é completamente injustificado, além de ser uma mera projeção das nossas próprias idéias na economia da natureza”. É certamente isso que fazemos, e porque não haveríamos de o fazer? Não precisamos de projetar as nossas próprias idéias na economia da natureza; elas pertencem-lhe por direito próprio. As nossas próprias idéias estão na economia da natureza porque nós próprios estamos nela. Cada uma das coisas que o homem faz inteligentemente é feita com uma intenção e com um determinado objetivo, que é a causa final por que o faz. O que quer que um trabalhador, um engenheiro, um industrial, um escritor ou um artista façam não é mais do que a realização, através de meios selecionados inteligentemente, de um determinado fim. Não existe qualquer exemplo conhecido de uma máquina auto-construída que tenha surgido espontaneamente em virtude de leis mecânicas da matéria. Através do homem, que é parte integrante da natureza, também a intencionalidade é certamente parte integrante da natureza. Então, em que sentido é que ela é arbitrária, sabendo à partida que onde há organização há também uma intenção, para concluir que há uma intenção onde quer que haja uma organização? Compreendo perfeitamente o cientista que rejeitar tal conclusão como não científica. Também compreendo o cientista que me disser que, como cientista, não lhe compete chegar a qualquer conclusão quanto à causa possível da existência de corpos organizados. Mas realmente não consigo compreender em que sentido minha conclusão, se eu a quiser inferir, é “um erro comum”.

Por que haveria de ser um erro concluir que há intenção no universo, com base no progresso biológico? Porque, como responde Julian Huxley, isto “pode ser demonstrado como sendo um produto tão natural e inevitável da luta pela existência como é a adaptação, e como não sendo mais misterioso do que, por exemplo, o aumento da eficácia tanto do projétil perfurante como da blindagem, ao longo do século passado”. Será que Julian Huxley sugere que a blindagem se tornou espontaneamente mais espessa à medida que os obuses se tornavam mais fortes durante o século passado? Por outras palavras, será que ele defende que a intencionalidade está tão ausente da indústria humana como está do resto do mundo? Ou será que defende que o resto do mundo está tão cheio de intencionalidade como o está obviamente a indústria humana? Em nome da ciência ele defende ambas as posições, nomeadamente, que as adaptações nos organismos não são mais misteriosas, onde não há intencionalidade para as explicar, do que o é a adaptação na indústria humana, onde por todo o lado a intencionalidade a explica. Que as adaptações que se devem a uma luta sem intenção pela vida não são mais misteriosas do que as adaptações que se devem a uma luta com intenção – se esta proposição é um “erro comum”, não sei, parece certamente um erro. É o erro de um cientista que, dado que não sabe formular questões metafísicas, recusa obstinadamente as suas respostas metafísicas corretas. No Inferno do mundo do conhecimento existe um castigo especial para este tipo de pecado; a reincidência na mitologia. Mais conhecido como um prestigiado zoólogo, Julian Huxley também merece a honra de ter acrescentado o deus Luta à já grande família dos olimpianos.

O mundo que perdeu o Deus cristão só pode assemelhar-se ao mundo que ainda não o encontrou. Tal como o mundo de Tales e de Platão, o nosso mundo moderno está “cheio de deuses”. Nele existem a cega Evolução, a lúcida Ortogénese, o benevolente Progresso e outros cujo nome é mais aconselhável não mencionar. Para que ferir desnecessariamente os sentimentos dos homens que, hoje, os transformam num culto? Contudo, é importante percebermos que a humanidade está condenada a viver cada vez mais sob o feitiço de uma nova mitologia científica, social e política, exceto se exorcizarmos resolutamente estas noções confusas cuja influência na vida moderna se torna aterradora. Milhões de homens morrem de fome e sangram até a morte porque duas ou três destas abstrações deificadas, pseudo-científicas ou pseudo-sociais estão agora em guerra. Porque quando os deuses lutam entre si, há homens que tem de morrer. Não poderíamos nós fazer um esforço para compreender que a evolução deve ser em grande parte aquilo que quisermos que seja? Que o Progresso não é uma lei que se cumpre automaticamente mas algo para ser pacientemente conquistado pela vontade dos homens? Que a Igualdade não é um fato consumado mas um ideal de que nos devemos progressivamente aproximar através da justiça? Que a Democracia não é a deusa condutora de algumas sociedades mas uma promessa magnífica que deverá ser cumprida por todos através do seu desejo obstinado de amizade, se forem suficientemente fortes para a fazer perdurar durante gerações?

Penso que poderíamos, mas deveria haver primeiro uma grande lucidez, e é aqui que apesar da sua incapacidade proverbial a filosofia poderia constituir uma ajuda. O problema de tantos dos nossos contemporâneos não é serem agnósticos mas antes serem teólogos pouco judiciosos. Os verdadeiros agnósticos são muito raros e não prejudicam ninguém a não ser a si próprios. Tal como não tem Deus, estes também não têm deuses. Muito mais comuns, infelizmente, são esses pseudo-agnósticos que, porque combinam conhecimento científico e generosidade social com uma total falta de cultura filosófica, substituem mitologias perigosas à teologia natural, a qual nem sequer compreendem.

O problema das causas finais é talvez o problema mais habitualmente discutido por estes agnósticos modernos. Foi por isso que atraiu particularmente a nossa atenção. É contudo apenas mais um entre os muitos aspectos do mais elevado de todos os problemas metafísicos, o do Ser. Para além da interrogação: “por que há seres organizados?”, espreita uma mais profunda, que coloco utilizando os termos do próprio Leibniz: por que há alguma coisa em vez de nada? Mais uma vez compreendo inteiramente um cientista que se recuse a colocar esta interrogação. Compreendo se ele me disser que a pergunta não faz sentido. Cientificamente falando, não faz. Metafisicamente falando, faz. A ciência pode explicar muitas coisas deste mundo; pode um dia explicar tudo o que é realmente o mundo dos fenômenos. Por que é que alguma coisa é ou existe, a ciência não sabe, precisamente porque nem sequer sabe fazer a pergunta.

A esta interrogação suprema, a única resposta concebível é que toda e qualquer energia existencial, toda e qualquer coisa que exista depende, para existir, de um puro Ato de existência. De forma a ser a resposta última a todos os problemas existenciais, esta causa suprema tem de ser a existência absoluta. Sendo absoluta, essa causa é auto-suficiente; se cria, o seu ato criativo tem de ser livre. Como cria não apenas ser mas ordem, tem de ser algo que pelo menos contenha eminentemente o único princípio de ordem conhecido por nós através da experiência, nomeadamente do pensamento. Mas uma causa absoluta, que subsiste por si só e conhece não é algo mas alguém. E, suma, a primeira causa é o Uno em que coincidem a causa da natureza e da história, um Deus filosófico que também pode ser o Deus de uma religião.

Ir mais além seria cometer um erro equivalente ao de alguns agnósticos. A incapacidade de tantos metafísicos de distinguirem entre filosofia e religião revelou-se não menos prejudicial à teologia natural do que a sua invasão pela ciência pseudo-metafísica. A metafísica postula Deus como um puro Ato de existência, mas não nos fornece nenhum conceito da Sua essência. Sabemos que Ele é; não O compreendemos. Os metafísicos mais simplistas levaram involuntariamente os agnósticos a acreditar que o Deus da teologia natural era o “relojoeiro” de Voltaire ou o “carpinteiro” da apologética de pacotilha. Em primeiro lugar, nenhum relógio foi feito por qualquer relojoeiro; “relojoeiros” deste tipo simplesmente não existem; os relógios são feitos por homens que sabem fazer relógios. Do mesmo modo, postular Deus como causa suprema daquilo que é, significa saber que Ele é Ele que pode criar, porque Ele é “Ele que é”; mas isto ainda nos diz menos sobre o que pode ser a existência absoluta do que qualquer obra de carpintaria nos diz sobre o homem que a fez. Como homens, só podemos afirmar Deus em bases antropomórficas. Mas isso não nos obriga a postulá-Lo como um Deus antropomórfico. Tal como diz São Tomás de Aquino:

O verbo ser é usado de duas formas diferentes: numa primeira, significa o ato de existir (actu assendi); numa segunda, significa a composição dessas proposições que a alma inventa juntando um predicado a um sujeito. Considerando ser na primeira forma, não podemos conhecer a Sua essência. Conhecemo-lo apenas na segunda forma. Porque, de fato, sabemos que a proposição que formamos sobre Deus quando dizemos: “Deus é”, é uma proposição verdadeira, e sabemo-lo a partir dos Seus efeitos.

Se este for o Deus da teologia natural, a verdadeira metafísica não culmina num conceito, seja ele o de Pensamento, Bem, Uno ou Substância. Nem sequer culmina numa essê3ncia, mesmo que seja a do próprio Ser. A sua última palavra não é ens mas esse; não ser mas é. O derradeiro esforço da verdadeira metafísica é o de postular um Ato através de um ato, ou seja, postular através de um ato de julgamento o Ato supremo de existir cuja essência, porque é ser, ultrapassa a compreensão humana. Onde a metafísica do homem termina, começa a sua religião. Mas o único caminho que o pode conduzir ao ponto onde começa a verdadeira religião tem necessariamente de o conduzir para além da contemplação das essências, até ao verdadeiro mistério da existência. Este caminho não é muito difícil de encontrar, mas poucos são os que ousam percorrê-lo até o fim. Seduzidos como estão pela beleza inteligível da ciência, muitos homens perdem todo o gosto pela metafísica e pela religião. Alguns outros, absorvidos pela contemplação de alguma causa suprema, tomam consciência de que a metafísica e a religião deveriam acabar por se encontrar, mas não sabem dizer como ou onde; daí que separem a religião da filosofia ou ainda que renunciem à religião em prol da filosofia, se, como Pascal, não renunciarem à filosofia em prol da religião. Por que não havemos de conservar a verdade e de a conservar na sua totalidade? Isso pode ser feito. Mas só o conseguem fazer aqueles que compreenderem que Ele Que é o Deus dos filósofos é ELE QUE É, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob.

(Étienne Gilson, Deus e a Filosofia, Edições 70, págs 86 – 101)

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7 Responses to Deus e a Ciência (ou Cientistas x Metafísica)

  1. Qual é a interpretaçao religiosa sobre o fim último do homem?

  2. David says:

    Vai ser difícil. Étienne Gilson era homem e famoso filósofo tomista, porém morreu em 1978.

  3. elcinio says:

    pois é étienne, vou te dizer, eu acredito muito na dualidade, onde uma coisa só existe em função de outra, assim que para se conhcecer o bem temos que ter noção do mal, assim também para se se conhecer a Deus, tiveram que pintar o Diabo…….agora vc demonstrou que não sabe nada de física, não se aprofundou em ciência quântica, então vc só conhece um lado, sem a dualidade, isto significa que vc está travada, tem uma barreira na tua consciência, destrava e vc vai mudar tua concepção, simples assim… só uma ideia, assista professor hélio no y tub….sou apenas um buscador e te convido a ser tb…..

  4. A ESSENCIA DE DEUS
    A “ESSENCIA DE DEUS” é composta de todo o “ESPAÇO FISICOU DO UNIVERSO” ocupado por uma “INTELIGENCIA” do mais alto grau de perfeição, para dar a origem no tempo e no espaço, todas as formas de “ENERGIAS”, que “movimentam”, desde o átomo, com suas estruturas infinitesimais dimensões, até todos os corpos celestes, que compõe o Cosmo em perfeita harmonia e equilíbrio em seus movimentos, e a pureza de seus sentimentos de “AMOR” constituído de “PIEDADE”, “JUSTIÇA” e “MISERICORDIA”, nos dá, a existência da vida.

  5. luanna germano says:

    bom.meu nome e luanna e eu estou cursando o 1ºano,eu estou começando a me interessar em quimica e em fisica ,sao materias que as pessoas temem mas que eu gosto porque quando a gente tem medo ou curiosidade aprendemos mais.e a pergunta e como eu parei nesta pagina bom eu estou lendo um livro de fisica e nele pergunta QUALQUER UM PODE SER CIENTISTA?bom,se o senhor(a) poder me dar uma forcinha ficaria grata se me respondece♥obrigada pela atençao e compreençao!

  6. Ivaniza Cardoso says:

    com oo que sei e li puder ser e entender que a vida humana é e sempre sera uma filosofia pois a filosofia nunca ns dara a felicidade o amor a vida e ao proximo e isso resume-se ao caracter de cada cidadão que apredita a seu modo a Deus a vida eterna adoro poder ter dois olhos e braos saudavs que m permtm ler naveg e poder conhecer graças a vossa sabedoria que é de muita valia. adoro filosofia e DEUS. Mesmo com seus altos e baixinhos

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