Um povo que caminha: as peregrinações

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No tímpano de Autun, na cena do Juízo Final, todos os mortos saem do túmulo nus como Adão, exceto dois peregrinos que trazem aos ombros as suas sacolas de mantimentos, uma delas marcada com a cruz da Terra Santa e a outra com a concha de Santiago. Sob a proteção desses emblemas, pode-se enfrentar o julgamento de Deus.

Todos vão ou desejam ir em peregrinação, sejam grandes ou humildes, prelados ou príncipes, artesãos ou lavradores. Nessa enorme multidão, vestida com o mesmo hábito tradicional, as classes confundem-se fraternalmente. Há também peregrinos de todas as idades, desde crianças de doze anos até octogenários, todos eles percorrendo penosas etapas. Aguardam-nos dificuldades e perigos sem conta. Em princípio, o caráter sagrado da marcha deveria protegê-los, mas são atacados por salteadores sem fé. A longa caminhada a pé, o cansaço e o frio são rudes penitências. Não há dúvida de que existem cristãos generosos que abrem aos romeiros a sua casa e a sua mesa, chegando a matar um cisne em honra deles, como se lê na cantiga de Raoul de Cambrai. Não há dúvida de que existem também lugares para abrigar esses errantes de Cristo, como essas abadias de generosa hospitalidade e os “hospícios”, albergues construídos por obras pias. Mas a prova é dura e tem muito mérito aos olhos de Deus.

Imaginemos um desses cristãos lançados na grande aventura. Chegou o momento de cumprir o voto que fez. A esposa ou os pais geralmente preocupam-se e protestam: por que partir? Deus pede tanto? E se é realmente indispensável, por que não escolher um lugar de peregrinação mais próximo, Conques, Vézelay ou Puy? Compostela está tão longe! Mas o “jacquot” não escuta ninguém e começa a seguir o seu sonho. Pelos amigos, sabe das maravilhas que o esperam: vitrais, esculturas, altares gigantescos, a famosa estátua de São Tiago sobre o seu trono de prata, as suntuosas cerimônias que se realizam no santuário e, sobretudo, o próprio corpo do santo, “iluminado por rubis paradisíacos, ornado com o brilho dos fachos celestes”. A sua decisão está tomada e ninguém conseguirá demovê-lo. Além do mais, já se confessou e recebeu o bilhete que, garantindo que parte em paz com Deus e a Igreja, lhe permitirá ter, quando voltar, o título muito respeitado de “irmão de São Tiago”. Já foi recebido pelo bispo, que lhe entregou uma carta de recomendação dirigida às autoridades do trajeto. Isso provará que não se trata de um desses bandoleiros que se infiltram nos grupos de piedosos, Deus sabe com que intenções. E, por uma questão de prudência, fez também o seu testamento…

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O seu equipamento é simples, já fixado pelo costume: um grande chapéu de aba levantada, guarnecido de conchas, símbolos das virtudes do santo, ou de piedosas estatuetas compradas ao longo do caminho. Sobre os ombros, uma espécie de murça de couro, uma ampla romeira a tiracolo, a indispensável cuia; na mão, o bastão curvado ou bordão, companheiro fiel, e, por fim, a bolsa para as provisões ou escarcela, presa na cintura.

Os mais prudentes documentam-se para a viagem com guias que são os ancestrais dos nossos guias geográficos e turísticos; o mais famoso é o dos peregrinos de Santiago, escrito em 1140 por Aimery Picaud. Contam tudo: as curiosidades e dificuldades do itinerário, os locais de hospedagem e os trechos perigosos. Não te carregues com muita coisa, aconselha sabiamente o guia. Ao atravessares pântanos, desconfia das areias, onde podes afundar-te, e protege-te das moscas chamadas tavões. Toma cuidado com os alimentos cozinhados com azeite, que são “um verdadeiro veneno”, e também com as fontes de água, pois nem todas são de confiança. Economiza o teu dinheiro porque a viagem pode demorar mais do que o previsto, e não hesites em dormir ao relento para poupares os teus fundos.

Chega o dia da partida, geralmente na época da Páscoa. Centenas de alegres peregrinos reúnem-se no local combinado – em Paris, a Torre de Saint-Jacques (São Tiago). Assistem à missa e acompanham as orações que se rezam especialmente para esta circunstância. O padre asperge-os com água benta e entrega a cada um o bordão e a escarcela. Há um último dia para as despedidas, e, ao cair da noite, a turba põe-se em movimento. Um imenso “aleluia” sai de todos os pulmões, e pelo caminho vai-se ouvindo, até que se extingue, o refrão encorajados: “Em frente, peregrinos, sempre em frente!”

A caravana terá de atravessar vários países, seguindo caminhos fixados pela tradição. Homens, mulheres e crianças avançam misturados e a pé; são raros os que podem dar-se ao luxo modesto de um cavalo ou de um jumento. Há jograis que escoltam os caminhantes e cujas vozes alternam com os cânticos entoados pela multidão em coro. Só os penitentes públicos, que se reconhecem pelo capuz sombrio marcado com cruzes vermelhas, é que caminham em silêncio, meditando e rezando. É a grande aventura que começa a desenrolar-se, o povo cristão que caminha. Vai-se por etapas, de lugar santo em lugar santo, pois o trajeto está balizado por recordações de fé. Aos olhos dos peregrinos, o mapa da Cristandade está constelado de pontos de referência que são as catedrais, os túmulos, as basílicas. Este piedoso empreendimento vai durar semanas e semanas: nove meses para Santiago, um pouco menos para São Pedro, às vezes três anos para o Sepulcro de Deus!

(A Igreja das Catedrais e das Cruzadas, Daniel-Rops, Ed. Quadrante, 1993, págs 81-83)

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