Deus e a Filosofia

gifindice

Livro_Deus_e_a_Filosofia

Prefácio

Fui educado num colégio católico francês, de onde saí, depois de sete anos de estudos, sem ter ouvido uma só vez, pelo menos tanto quanto me posso lembrar, o nome de São Tomás de Aquino. Quando chegou a altura de estudar filosofia, fui para um liceu público, cujo professor de filosofia, um discípulo tardio de Victor Cousin, certamente também nunca havia lido Tomás de Aquino. Na Sorbonne, nenhum dos meus professores sabia coisa alguma sobre a sua doutrina. Tudo o que acabei por saber foi que, se alguém fosse suficientemente louco para o ler, descobriria aí uma expressão dessa escolástica que, desde Descartes, se tinha tornado em mera arqueologia mental. Contudo, para mim a filosofia não era Descartes nem mesmo Kant; era Bergson, o gênio cujas aulas ainda perduram na minha memória como horas de transfiguração intelectual. Henri Bergson foi o único mestre de filosofia vivo que tive como professor e considero que foi uma das maiores bênçãos concedidas por Deus à minha vida filosófica porque, graças a Bergson, conheci gênios filosóficos noutros lugares e de outra forma que não em livros. Porém, embora Bergson diga que desde as suas primeiras tentativas filosóficas sempre esteve em busca do Deus da tradição judaico-cristã, ele próprio não o sabia na altura; de qualquer forma, nunca ninguém foi conduzido por Bergson ao método filosófico de São Tomás de Aquino.

O homem a quem devo os meus primeiros conhecimentos sobre S. Tomás de Aquino era judeu. Nunca tinha aberto uma única obra de São Tomás, nem tencionava fazê-lo. Mas era, para além de muitas outras coisas boas, um homem de uma inteligência quase sobrenatural, com um dom surpreendente de observar os fatos de forma imparcial, fria e objetiva, tal como eles eram. Quando assisti ao conjunto de conferências sobre Hume, que ele deu na Sorbonne, compreendi que, para mim, perceber qualquer filosofia significaria sempre abordá-la como tinha visto Lucien Lévy-Bruhl fazê-lo em relação a Hume. Quando dois anos mais tarde fui procurá-lo a propósito do tema de uma tese, aconselhou-me a estudar o vocabulário e, posteriormente, o que Descartes utilizava da escolástica. Daí saiu o livro que depois viria a publicar sob o título: La Liberté chez Descartes et la théologie. Sob o ponto de vista histórico, esta obra está agora desatualizada, mas os seus nove longos anos de preparação ensinaram-me duas coisas: primeiro, a ler São Tomás de Aquino; em segundo lugar, que Descartes tinha tentado em vão resolver, através do seu famoso método, problemas filosóficos cuja única formulação e solução corretas eram inseparáveis do método de São Tomás de Aquino. Por outras palavras (e a minha surpresa pode ainda ser vista ingenuamente expressa nas últimas páginas desse livro hoje desatualizado), descobri que o único contexto no qual as conclusões metafísicas de Descartes faziam sentido era no da metafísica de São Tomás de Aquino.

Dizer que isto foi para mim um choque seria dramatizar indevidamente o que foi apenas a conclusão objetiva de uma paciente observação histórica. Todavia, porque se tornou para mim evidente, tecnicamente falando, que a metafísica de Descartes fora uma desastrada revisão da metafísica escolástica, decidi aprender metafísica através daqueles que realmente a conheceram, esses mesmos escolásticos que os meus professores de filosofia não hesitavam em desprezar pela simples razão de que nunca os tinham lido. Ao estudá-los adquiri a plena convicção de que filosofar não consiste em repetir o que eles disseram, mas antes que não é possível haver qualquer progresso filosófico sem aprendermos primeiro a compreender o que eles sabiam. A condição caótica em que se encontra a filosofia contemporânea, com o caos moral, social, político e pedagógico daí decorrente, não se deve a qualquer falta de discernimento filosófico dos pensadores modernos; resulta simplesmente do fato de nos termos perdido, porque perdemos o conhecimento de alguns princípios fundamentais que, por serem verdadeiros, são os únicos em que se pode fundamentar, hoje como no tempo de Platão, qualquer conhecimento filosófico digno desse nome. Se alguém tiver medo de tornar estéril a sua preciosa personalidade filosófica por aprender simplesmente como pensar, que leia os livros de Jacques Maritain como sedativo para os seus receios de esterilidade intelectual. A grande maldição da filosofia moderna é a rebelião que prevalece quase universalmente contra a autodisciplina intelectual. Onde o pensamento desarticulado predomina, a verdade não pode ser alcançada, daí que a conclusão natural seja a de que não existe verdade.

As conferências que se seguem têm por base o pressuposto contrário, de que a verdade pode ser encontrada, mesmo na metafísica. O seu conteúdo não é nada que se pareça com a história do problema filosófico de Deus; importantes doutrinas foram apenas esboçadas, enquanto muitas outras nem sequer foram mencionadas. Também não pretendem ser uma demonstração suficiente da existência de Deus. O seu âmbito e objetivo consiste antes em alcançar uma definição clara e precisa de determinado problema metafísico. Gostaria de pensar que, depois de lerem o que se segue, alguns dos meus leitores pudessem pelo menos compreender o significado das suas próprias palavras quando afirmam que a existência de Deus não pode ser demonstrada. Ninguém sabe realmente que isso não pode ser feito sem pelo menos compreender o que seria consegui-lo. O único filósofo que me fez entender claramente todas as implicações metafísicas deste problema foi São Tomás de Aquino. Prezo tanto a minha liberdade intelectual como qualquer outra pessoa, mas quero ser livre para concordar com alguém quando considero que o que diz é correto. São Tomás de Aquino nunca pensou em nada semelhante a uma “verdade tomista”; Estas palavras nem sequer fazem sentido. Considerando diversas respostas ao problema de Deus e avaliando a sua capacidade relativa de corresponder a todos os requisitos, cheguei à conclusão de que a melhor resposta foi dada pelo homem que, por ter sido o primeiro a compreender as implicações mais profundas deste problema, foi também o primeiro a curvar-se livremente à necessidade metafísica da sua solução única. Que não hesite todo aquele que ainda hoje conseguir fazer o mesmo tão livremente como São Tomás de Aquino.Quanto aos que não conseguirem ou não quiserem fazer, que tenham ao menos a satisfação de rejeitar a única solução pertinente para um verdadeiro problema: nem o supremo carpinteiro de Paley nem o supremo relojoeiro de Voltaire, mas o ato infinito de auto-existência, através do qual todo o resto é e, comparado com ele, todo o resto é como se não fosse.

Mas devo agradecer especialmente ao Professor W. Harry Jellena. A sua carta de convite traçava e definia tão claramente a tarefa que eu devia realizar, que citar uma das suas frases é talvez ainda a melhor hipótese de eu conseguir, se não justificar o conteúdo destas conferências, pelo menos clarificar a sua intenção geral: “Para demasiados filósofos atuais, a filosofia já não significa nada do que devia significar; e, para quase todos os nossos contemporâneos, o cristianismo nada tem a dizer que a ciência não tenha refutado, nem contém nada intelectualmente respeitável que não tenha já sido dito pelos Gregos”. Foi minha intenção mostrar, sobre o problema específico de Deus, que os filósofos disseram, por influência dos Gregos, coisas que nunca foram ditas pelos próprios Gregos; que essas coisas são tão intelectualmente respeitáveis que se tornaram parte integrante da filosofia moderna; e que, embora ninguém possa esperar que a  ciência as confirme, não devemos erradamente aceitar como sendo uma refutação da ciência a incapacidade de alguns cientistas em compreender os problemas fundamentais da metafísica.

ÉTIENNE GILSON

Pontifical Institute of Mediaeval Studies

(Étienne Gilson, Deus e a Filosofia, Edições 70, págs. 15-18. ISBN 972-44-1176-1)

gifindice

twitter_bird_follow_me

One Response to Deus e a Filosofia

  1. ocampones says:

    Fantástico esse post!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: