Causalidade e casualidade

giflivros

setelicoes

II

O acaso

7

É preciso, porém, dizer algumas palavras sobre uma questão conexa à da causalidade, sobre a questão do acaso. Notem bem o caráter filosófico e ontológico da noção de causa eficiente tal como tentamos destacá-la: é uma razão de ser extrínseca na qual uma coisa ou um acontecimento encontra, se podemos assim dizer, a inteligibilidade, não digo para nós, mas em si, da posição na existência, encontra o que torna inteligível por si sua posição na existência. Tal noção de causa implica, conseqüentemente, a de comunicação de ser; e esta causa eficiente é um agente preordenado a este efeito como a árvore é preordenada ao fruto, a força viva ao movimento local, o hidrogênio e o oxigênio a produzir água nestas ou naquelas condições. É preciso ter presente ao espírito esta noção filosófica e ontológica da causa eficiente para ter uma teoria exata do acaso. É porque esquecemos muito freqüentemente este indício essencialmente ontológico da noção de causa que não compreendemos mais com exatidão a teoria aristotélica e tomista do acaso.

O acaso, o acontecimento fortuito, supõe uma interferência de linhas causais independentes. Há, e é este o fundamento da noção do acaso entre os antigos, um pluralismo irredutível que constitui o acaso – é este pluralismo nas séries causais que se encontram em determinado momento, e não a imprevisibilidade, que constitui o acaso. Um acontecimento fortuito pode ser previsto se seus componentes são suficientemente simples; ele permanece sendo um acontecimento fortuito, desde o instante em que é um puro encontro.

Vocês se lembram do exemplo de Aristóteles: será preciso dizer que um homem é morto pelos bandidos porque comeu alimentos salgados demais? Qual é a ligação entre esta causa e este efeito: ele comeu alimentos salgados demais, teve sede, quis beber, saiu para ir à fonte, atrás da fonte estavam escondidos bandidos que aproveitaram a ocasião para matá-lo. Eis portanto uma série de causas e de efeitos. Tudo é necessário aqui? Para nos dar conta desta noção de acaso, muito mais complicada do que se pensa às vezes, analisemos de perto este exemplo.

o_acaso

Temos aqui três séries causais. Uma série causal vai do alimento salgado à sede, é normal e está na própria ordem da natureza das coisas que um alimento salgado provoque sede, então a sede causa por si o desejo de beber, e este desejo passa ao ato. Em uma segunda série encontramos primeiramente uma condição: não há água na casa, e então é preciso que nas proximidades  haja uma fonte, e o próprio fato de que esta fonte exista nas proximidades supõe uma causa – ele provém do fato de que há um lençol de água subterrâneo em tal lugar, então isto dependeu de toda uma série de fenômenos geológicos. Há, finalmente, uma terceira série causal, em razão da qual os bandidos se encontram postados em tal lugar, e isto dependerá, por exemplo, do fato de que eles se esconderam nas florestas porque eram perseguidos pela polícia, por causa destes ou daqueles crimes anteriores, etc. Assim temos um cruzamento de três séries causais independentes, e é pela existência deste cruzamento que o acontecimento da morte ocorreu. Cada uma das causas consideradas continua ou teria continuado a agir em sua própria linha. Os bandidos teriam continuado a sua ocupação de bandidos, a fonte continua sua atividade causal própria (erosão produzida na superfície da terra, evaporação, etc.), e, se o indivíduo não tivesse sido morto, a bebida que ele teria tomado teria produzido este ou aquele efeito em seu organismo. Cada um dos acontecimentos separado de cada série causal tem, por conseguinte, a sua causa na série. Mas o encontro de um acontecimento de uma série, por exemplo o acontecimento presença de bandidos com o acontecimento presença da fonte e desejo de beber, o encontro destes três acontecimentos não tem, como tal, causa no universo inteiro, isto é, não há uma natureza, um agente natural que esteja, em nome de sua estrutura, preordenado a esta coisa, preordenado a este fato do encontro destes três acontecimentos, e tampouco há ima inteligência criada que tenha tido esta intenção.

Este esquema nos faz compreender a multiplicidade irredutível que está no acaso. Cada uma destas linhas diverge das outras ao retroceder na série, de maneira que, quanto mais retornamos na série das causas, mais nos distanciamos da possibilidade de encontrar uma causa preordenada ao fato deste encontro e dando-lhe razão.

Isto quer dizer que este fato, a reunião destas três linhas causais em um momento dado, é certamente contingente, mas não é um ser contingente; este é o ponto difícilo e importante a ser compreendido na teoria do acaso. Este encontro não tem ser (a não ser em um pensamento), ele existe mas não é uma essência, é uma simples coincidência e não tem unidade ontológica que exija, para que sua posição no ser seja inteligível, uma estrutura que age que lhe seja ordenada. Nem ser verdadeiro, nem unidade verdadeira e, conseqüentemente, tampouco causa verdadeira (no sentido ontológico que acabo de esclarecer no começo).

8Vocês encontrarão estas noções expostas – penso que é o artigo mais profundo que trata do fortuito – por Santo Tomás na Prima Pars, 115, 6. Trata-se de saber se os corpos celestes impõem necessidade a tudo o que acontece. É, na realidade, toda a questão do mecanismo que se encontra tratada aqui em outra linguagem. E Santo Tomás responde de uma maneira que poderia, à primeira vista, parecer paradoxal: “Supondo que tudo o que é tem uma causa, e, por outro lado, supondo que, estando posta a causa, o efeito se segue necessariamente (estas coisas não parecem evidentes?), alguns concluiriam que todas as coisas acontecem necessariamente, opinião que Aristóteles refuta no livro sexto da Metafísica, precisamente segundo as duas asserções invocadas aqui, já que, em primeiro lugar, não é verdade que estando posta uma causa qualquer o efeito deve se seguir necessariamente. Uma vez que há certas causas que produzem seus efeitos, não de uma maneira necessária, mas somente na maior parte dos casos, causas que às vezes falham na minoria dos casos. (Basta que a causa, ordenada por si mesma a um efeito, tal remédio ordenado a produzir a cura do organismo, se encontre impedida de produzir seu efeito.) Mas, continua Santo Tomás, porque tais causas só falham neste ou naquele caso pelo seguimento de uma outra causa impedidora, parece que os adversários têm razão, porque este impedimento, tendo a sua causa, acontece necessariamente? É este o motivo pelo qual é preciso dizer, em segundo lugar, que tudo aquilo que é por si, omne quod est per se, tudo aquilo que constitui uma essência propriamente dita, um ser propriamente dito, tem a sua causa; mas aquilo que é por acidente não tem causa, quia non est vere ens, cum non sit vere unum.

É importante notar esta asserção de Santo Tomás. Porque não é um ser verdadeiro, estando dado que isto não tem unidade ontológica, não há a exigência de uma causa de que esta coisa seja o efeito, de uma causa na natureza da qual este efeito esteja pré-inscrito. “Ora, é evidente que a causa que impede a ação de outra, que esta causa impedidora concorre com a primeira per accidens, é por acidente que ela interfere na primeira. Este é o porquê de tal concurso de causas não ter causa, na medida mesma em que é por acidente, e, doravante, aquilo que se segue a tal concurso não se reduz a certa causa preexistente de onde isto se seguiria necessariamente. Assim, o fato de que um meteoro ígneo se forme em alguma parte do ar e caia sobre a terra encontra sua causa na virtude dos corpos celestes (isto tem na constituição do universo uma dominante causal que exige este efeito em virtude de uma certa estrutura essencial). E, do mesmo modo, que na superfície da terra se encontrem em algum lugar alguns materiais combustíveis pode ser reduzido, também a certas causas dependendo dos corpos celestes; mas que o fogo, ao cair, encontre estes materiais e os queime, que haja interseção entre estas duas séries causais, não há nenhum corpo celeste que seja a sua causa (isto é, não há nenhum agente e nenhuma estrutura essencial que o exija por si). Non habet causam aliquod coeleste corpus, sed est per accidens.” Tudo se reduz, por conseguinte, ao pluralismo de que falávamos há pouco. Vejam ainda a última lição, lição 14, sobre o livro primeiro do Perihermenéias. Em cada uma das séries causais independentes consideradas aqui há sucessão de causas e efeitos, mas o próprio encontro não depende de uma causa ordenada por si a este encontro, exigindo por si este encontro. O incêndio provocado pelo raio é um acontecimento que substitui aquele que teria se seguido naturalmente na série; seja, por exemplo, a acumulação de vegetais secos que se encontra realizada em algum lugar do solo: nesta mesma série causal o acontecimento posterior poderia ter sido que os vegetais secos contribuem para adubar a terra, a série teria continuado na mesma linha; mas o acontecimento ao qual conduzia por si o acontecimento precedente não ocorreu, foi interrompido pelo fato de seu encontro com uma outra série causal de ordem metereológica.

9Seria preciso, para ter uma idéia completa desta teoria, acrescentar o que Santo Tomás explica no artigo seguinte (q. 116, a. 1), em que diz que nada impede que aquilo que é por acidente seja unificado por um espírito e assim este encontro, esta inserção de causas que constitui o acaso e não constitui um ser que tem fora do espírito a sua unidade própria, que é uma pura coincidência do múltiplo, este encontro de séries causais tem uma unidade no espírito que a conhece – e, antes de tudo, no espírito que é causa da natureza; e este mesmo encontro, como é conhecido por este espírito, pode ser causado por ele, pode depender da providência deste espírito que dispõe todas as coisas e que dispôs toda esta multiplicidade, esta infinita multiplicidade de causas particulares com suas interseções.

Com isto vocês vêem que devemos estabelecer a fórmula do princípio de causalidade. Digamos: tudo aquilo que existe ou acontece de uma maneira contingente ou misturada de potência tem uma causa. Mas acrescentemos: segundo as exigências de seu ser ou de sua unidade. Se o que acontece ou existe deste modo é um ens per se, tem um ser e uma unidade próprios e reais, então isto tem no universo uma causa preordenada (e uma causa primeira fora do universo); e se o que acontece e existe assim não é vere ens, não é ens per se, mas ens per accidens, só tem um ser e uma unidade de razão como esta interferência do múltiplo, então isto só reconhece como sua causa um pensamento de que dependem as próprias séries causais que se encontram; isto é, no caso dos acontecimentos fortuitos que nem a inteligência do homem, nem a do anjo condicionaram, isto se reduz, como a uma causa visando a um efeito, ao espírito, à inteligência que conhece todas as coisas. Daí o interesse singular do fortuito, vocês vêem que ele depende de uma maneira, se podemos assim dizer, mais imediata (sob a relação da preordenação) da causa primeira do que dos outros acontecimentos.

Por outro lado, vocês compreendem em que sentido os antigos diziam que o acaso é uma causa por acidente, casus est causa per accidens, ou ainda: natura agens praeter intentionem, um agente natural agindo além de sua ordenação ao seu fim – por que agindo deste modo? Ora, por causa do encontro de outra série causal (vejam ainda, sobre esta questão, as grandes explicações de Aristóteles e de Santo Tomás no livro II da Física, liç. 7 a 10 de Santo Tomás, e ainda Metafísica liv. XI, liç. 8 de Santo Tomás, liv. XII, liç. 3 de Santo Tomás).

Tudo isto resume-se em dizer que a simples interseção como tal de linhas causais diferentes não é, em si, mais inteligível que o próprio fato; o que explica o fato fortuito, o acontecimento fortuito, são as causas em jogo em cada uma das diferentes linhas causais, mas nenhuma dessas linhas causais está ordenada a ele e esta multiplicidade de causas só explica o fato fortuito em questão sob a condição de que essas séries se encontrem em determinado ponto de interseção. E não há nada no mundo que exija isso, a não ser a pura multiplicidade de fato das posições dadas na origem. Não há agente cuja natureza peça para superabundar naquele efeito, seja ordenada àquele bem; dizemos “este fato fortuito ocorreu porque esta ou aquela coisa ocorreu anteriormente, porque estas duas séries causais se cruzaram”; isto quer dizer que unificamos esta multiplicidade em nosso espírito. Mas não há ser cuja estrutura e ordenação essenciais exijam por si este encontro.

Por isso mesmo vemos também que é impossível que o acaso seja o primeiro, pois o acaso supõe um encontro de séries causais e que cada uma dessas séries causais só exista nela mesma porque as causas que contém estão ordenadas a este ou àquele fim. O acaso supões, portanto, necessariamente a preordenação, e pensar que tudo se explica primitivamente pelo acaso é contradizer-se nos termos.

10 Esta teoria do acaso é, ela mesma, estabelecida em um léxico conceitual tão filosófoco, tão ontológico, usa noções tão filosóficas quanto a teoria precedente da causalidade. Se vocês lidam com uma noção puramente empírica ou puramente empírio-lógica da causa, se vocês esvaziam esta noção de causa de todo conteúdo filosófico e ontológico para constatar simplesmente o fato de uma anterioridade constante como querem os empiristas, então vocês não tem mais como discernir entre o necessário e o fortuito, e está totalmente na ordem das coisas que à medida que a ciência positiva via a causa como um sucedâneo puramente empiriológico, ela tenha se dirigido para uma teoria estatística da causalidade, para um indeterminismo estatístico destinado a substituir o determinismo causal propriamente dito.

Observemos também, e isto ainda se refere às mesmas considerações, que uma dificuldade pode se erigir diante da aplicação do princípio de finalidade no caso das multiplicidades ordenadas. Se consideramos não o caso da ordenação de um agente a seu efeito próprio, mas o de uma pluralidade unificada, uma multiplicidade unificada como a de uma orquestra – em poucas palavras, um caso de ordem (a ordem é essencialmente uma multiplicidade resumida em uma unidade) -, pois bem, diz-se correntemente, e isto é perfeitamente verdade, e é uma das expressões da finalidade, que a ordem supõe um ordenador que tem, ele próprio, a intenção desta unidade imposta ao múltiplo; isto pela razão fundamental, que Santo Tomás invoca frequentemente: é impossível que o múltiplo dê conta, por si mesmo, da unidade. Multa per se intendunt ad multa, unus vero ad unum.

Sendo isto verdade, podemos nos perguntar se o princípio em questão é sempre aplicável. Será que há casos em que pensamos que uma multiplicidade é ordenada intencionalmente quando, na realidade, não o é? Será que não podemos ver figuras nas nuvens, ou em velhas muralhas, como fazia Leonardo da Vinci, ou será que não podemos formar por acaso uma palavra ao agitar de qualquer maneira letras de um alfabeto? Pode ser que elas caiam por acaso e formem uma palavra que podemos ler, ao menos uma palavra muito curta, e pensaremos então que ela foi formada, escrita, intencionalmente por alguém. Como responder a esta dificuldade que é razoavelmente grave, no sentido de que aplicando as matemáticas a todo caso de ordem dada possamos nos perguntar qual é a probabilidade de que esta ou aquela ordem se encontre realizada? Qual é a probabilidade, por exemplo, de que, ao jogar um número imenso de vezes todas as letras do alfabeto, componhamos um poema como a Ilíada? O matemático se fará a pergunta e responderá calculando esta improbabilidade, ela poderá ser imensa, ainda resta, mesmo assim, implicada pelo próprio cálculo, uma possibilidade.

Penso que para responder à questão é preciso observar que se a unidade é real, consequentemente, se a ordem em questão é real, o princípio funciona com uma necessidade absoluta: esta ordem depende de um ordenador, de uma causa de unidade cuja inteligência visa à unidade deste diverso; toda a questão é de saber se a unidade é real ou aparente (de razão). Já que, em virtude da observação de Santo Tomás, o que por si não é um pode ser unificado no espírito, pode, portanto, haver uma unidade de razão ou uma unidade aparente sem que haja unidade real; e toda questão se resume a isto: encontrar um critério de distinção entre a unidade real existente fora do espírito e a unidade simplesmente de razão. Omatemático abstrai esta questão; para ele, a distinção entre o que é real ou de razão não tem interesse, então omatemático submeterá ao cálculo as probabilidades das coisas, dos casos, dos problemas que na realidade não suportam esta apresentação da questão. Desde o instante, por exemplo, em que um poema comporta uma unidade real, não somente uma aparência de unidade, mas que ele exprime realmente um organismo inteligível (não falo dos poemas surrealistas, e mesmo aqui o acaso de pensamento supõe o pensamento), a partir do momento em que o universo comporta igualmente uma unidade reaql constatável, por exemplo, pela constância de certas ações e de certas leis favoráveis à conservação do conjunto, desde este instante é preciso dizer que é impossível metafisicamente, não somente improvável, mas impossível, que esta ordem seja produzida sem ordenador; isto não impede de maneira alguma que o matemático faça seu cálculo de probabilidades porque ele abstrai a questão de saber se trabalha sobre seres reais ou sobre seres de razão.

giflivros

Anúncios

2 Responses to Causalidade e casualidade

  1. David says:

    Caro amigo Sérgio
    O livro em questão chama-se “Sete Lições Sobre o Ser”, de Jacques Maritain. É das Edições Loyola, 3 edição. O trecho que postei é a sétima lição, intitulada “O princípio da causalidade”, parte II, pág. 141 a 150.
    Abraço
    David

  2. Sérgio Roxo da Fonseca says:

    Meus amigos
    1. Parabéns.
    2. Tenho pelo menos duas dificuldades para a leitura do texto: a idade já me cria dificuldades para bem ler; b) não sou muito treinado para lidar com os computadores.
    2. Estou refletindo sobre o acaso e a causalidade na área de Direito Penal. Nunca dei aulas de DP, muito embora tenha sido propfessor e promotor de Justyiça até a aposenmtadoria. Queria indicar a fonte do seu trabalho em m,inha reflexão. Parece-me que está contida em um livro. Qual é o nome do livro e a editora? Qual é o nome do autor?
    Ficaria muito grato. Sérgio Roxo da Fonseca

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: