Sete lições sobre o ser

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ISBN 85-15-01160-3


A falsa moeda metafísica: o ser vago

“O ser do metafísico está ali também, diz algo ao senso comum, é o nervo secreto de tudo aquilo que ele conhece das coisas do espírito; mas não é conhecido como tal, senão todos os homens seriam metafísicos, o hábito metafísico não seria um aperfeiçoamento muito elevado e muito raro da inteligência, seria o próprio senso comum; o ser enquanto tal é apreendido às cegas neste nível, em um signo, em um objeto de pensamento que é como um sucedâneo e uma máscara do ens in quantum ens.

Esclareço: quando se diz ao senso comum: “o ser” (notem que ele próprio não o dirá: o senso comum raciocina sobre coisas particulares apoiando-se implicitamente sobre o ser que está lá, ele se eleva da consideração das coisas particulares à causa primeira destas coisas, este movimento de ascensão implica necessariamente o meio de demonstração que é o ser; se não considerássemos o ser dentro das coisas, não poderíamos passar para a causa primeira de todo ser. Ao menos é de forma implícita que o senso comum trabalha, que se apóia sobre o objeto de pensamento “ser”; de si mesmo o senso comum não pode tirar esta noção do ser considerado segundo o seu próprio mistério); quando o metafísico fala ao senso comum, e lhe diz “o ser enquanto ser”, o senso comum não pensará explicitamente mais do que no ser como objeto daquilo que os tomistas chamam a abstractio totalis, abstração que é pré-científica, infracientífica. (Vejam sobre isso Cajetan, Prooemium ao De Ente et Essentia, e João de Santo Tomás, Lógica, Secunda Pars. q. 27, art. 1) O que eles chamam abstractio totalis, digamos abstração “extensiva”, é a simples extração do todo universal relativamente a seus submúltiplos particulares, é a simples operação por meio da qual – antes de buscar se há, no que chamo homem, um núcleo original de inteligibilidade e do que ele é – tiro o objeto de pensamento “homem” de Pedro e Paulo, depois o objeto de pensamento “animal” de homem etc., passando assim a universais cada vez mais gerais. Os valores da irradiação inteligível permanecem implícitos aqui e como que ainda adormecidos, e o que aparece explicitamente é o que funda as relações lógicas de maior ou menor generalidade; esta abstração extensiva é comum a todo conhecimento, tanto ao conhecimento pré-científico como ao conhecimento científico que a supõe. Ora, por hipótese, no plano em que estamos, consideramos as coisas dos ponto de vista do senso comum, conseqüentemente de um conhecimento imperfeito, ainda não científico. Nisto não há outra hierarquia entre os conceitos abstratos além daquela que provém daquilo que o lógico, em sua consideração reflexiva, chamará de relações de extensão. E então, do mesmo modo como, por exemplo, a idéia de animal é mais vasta que a de homem (sem que tenhamos discernido ainda de maneira explícita o que distingue o animal do homem, já que se trata de noções confusas e ainda imperfeitas que o senso comum tem das coisas), também a idéia de ser será a mais vasta, a mais extensa de todas as noções sem que ainda tenhamos retirado como núcleo original do mistério inteligível as características próprias do ser, sem que tomemos conhecimento de sua fisionomia própria.

Notem que o que aqui parece muito simples, no entanto é muito difícil, uma vez que se trata de compreender o que acontece em nós em diferentes momentos do conhecimento que se expressam graças às mesmas palavras, graças à mesma palavra, “ser”. Vivemos familiarmente com pessoas sem saber a cor de seus olhos, sem saber o mistério individual de sua alma; se nos perguntam então: quem é fulano?, respondemos: é o meu camarada, meu companheiro de trabalho ou de lazer, sem que tenhamos percebido a sua singular fisionomia moral. Pois bem, acontece o mesmo com este objeto de pensamento, esta realidade original chamada ser. Não o olhamos nos olhos, é uma coisa simples demais, não nos damos o trabalho de extrair a sua verdadeira fisionomia, não desconfiamos do mistério próprio que esta noção encerra. Não é para nós, explicitamente, do ponto de vista daquilo de que temos consciência, mais do que o mais geral e cômodo dos quadros de que fazemos uso constantemente e onde todos os objetos de pensamento se encontram ordenados, o quadro mais comum; é somente um quadro.

Sim! Mas, ao mesmo tempo que o senso comum, quando lhe falamos do ser, só pensa explicitamente nesse quadro mais geral, ele também (e este segundo traço é tão típico e tão importante quanto o primeiro) aloja, situa neste quadro todas as diversidades sensíveis, todas as variedades de seres, todo um mundo confuso de formas sem-número: de modo que, se podemos assim falar, este quadro comum, mais o comichão sensível que ele encerra, é como uma espécie de equivalente prático e de sucedâneo do ser do metafísico.

Ainda não é o ser tal como o metafísico o verá, o extrairá. Há pouco, a propósito das ciências inferiores à metafísica, dizíamos ser particularizado. Aqui, podemos dizer ser vago, como mascarando e envolvendo o conceito metafísico do ser. Este conceito está lá, mas não foi extraído, está mascarado, não é visto e assim este ser vago do senso comum permite que se use, sem saber, e se use bastante, a noção metafísica de ser – mascarada – para desembocar em conclusões pré-filosóficas verdadeiras sobre alguns problemas fundamentais que o metafísico resolverá científica e filosoficamente. Estamos aqui, portanto, diante de um estado imperfeito do conhecimento e estamos, ao mesmo tempo, diante da espécie de filosofia que lhe convém, que ainda não é filosofia, que ainda não é saber perfeito, que é prefiguração, esboço de filosofia.”

(Jacques Maritain, Sete lições sobre o ser, Edições Loyola, 3ª edição, p. 39-41)

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