Nosso querido (e complicado) amigo, o SER – PARTE 3

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Capítulo Terceiro

AS CAUSAS

Art. I.    NOÇÕES GERAIS

1. Definições. – Chama-se princípio aquilo de que uma coisa procede, de qualquer maneira que seja. Assim, toda causa é princípio, mas todo princípio não é causa, pois o termo causa só se emprega para designar aquilo de que uma coisa depende quanto à existência. Chama-se efeito o produto da ação causal e conseqüentemente o que resulta do princípio.

2.       Análise da causa. – A análise revela três elementos ou condições na noção de causa. Por um lado, a causa deve ser realmente distinta do efeito. Em seguida, a causalidade não se confunde com a atividade: agir não é necessariamente causar ou produzir. – Por outro lado, o efeito deve depender realmente da causa, pois é em virtude da causa que é produzido. – Enfim, a causa deve ter sobre o efeito uma prioridade de natureza. Dizemos: “uma prioridade de natureza”, e não uma prioridade de tempo, pois a causalidade é uma relação que não implica necessariamente o tempo (ou a sucessão). É mesmo necessário dizer que, considerados no que têm de essencial, o exercício da ação causal e a produção do efeito são coisas simultâneas e indivisíveis.

3. Causa, condição, ocasião. – É necessário distinguir cuidadosamente estas três noções. A condição é o que permite à causa produzir seu efeito, seja positivamente a título de instrumento ou de meio (assim, o arco é para o violinista a condição da melodia que vai tocar), – seja negativamente, afastando os obstáculos (assim, o pianista deve fazer afinar seu piano, se quer tocar direito).

A ocasião é uma circunstância acidental, que cria condições favoráveis à ação (assim, o bom tempo é a ocasião que me decide a fazer um passeio). Nem a condição mais favorável, nem a condição mais indispensável (chamada condição sine qua non) podem ser confundidas com a causa propriamente dita, pois o efeito não depende dela essencialmente, mas acidentalmente.

ART. II.    AS QUATRO ESPÉCIES DE CAUSAS

Distinguem-se quatro tipos de causas: eficiente, material, formal e final. Tais são então as quatro maneiras pelas quais o ser pode contribuir para produzir alguma coisa.

§   1.      A   Causa Eficiente

1.       Definição. – A causa eficiente é aquela que, por sua ação física, produz o efeito. O escultor é causa da estátua, como estátua.

2.       Divisão. – A causa eficiente pode ser, quer causa principal ou instrumental, – quer causa essencial ou acidental, – quer causa primeira ou segunda, – quer (num sentido lato) causa física ou moral.

a) Causa principal e causa instrumental. A causa eficiente é causa principal, quando age por sua própria virtude (o escultor, que trabalha o mármore; o arquiteto, que constrói a casa) ; – ou causa instrumental, quando esteja ao serviço da principal (o cinzel do escultor; o pedreiro que executa os planos do arquiteto).

A ação é comum à causa principal e à causa instrumental, mas sob aspectos diferentes. Ela é inteiramente, mas não totalmente, efeito da causa instrumental (a casa é inteiramente produto da atividade dos pedreiros, marceneiros, carpinteiros etc.; mas não o é totalmente, uma vez que o plano da casa não é obra sua). – Ao contrário, a ação é inteiramente e totalmente efeito da causa principal, enquanto que esta determina e dirige toda a atividade da causa instrumental.

Daí se segue que o efeito se assemelha à causa principal e não à causa instrumental: o  estilo da casa revela o arquiteto  e não o pedreiro. – Pode também deixar a marca do instrumento, na medida em que este exerceu sua atividade própria juntamente com a ação da causa principal (quer dizer, foi ele próprio numa parte da obra causa principal) : assim, pode-se reconhecer, numa construção,  a maneira própria de tal pedreiro.

b)          Causa essencial e causa acidental. A causa, seja principal, seja instrumental, pode ser causa por si (ou essencial) ou causa por acidente (ou acidental). A primeira é a que produz o efeito próprio a que está ordenada; assim acontece com a operação cirúrgica que cura o doente. -A segunda é a que produz um efeito a que não está ordenada: assim, a operação cirúrgica que provoca a morte do paciente; assim, ainda, o ato do cultivador que, cavando seu campo para plantar uma árvore, descobre um tesouro. Vê-se assim que o efeito da causa acidental, ao contrário do da causa essencial, não tem razão final, uma vez que se produz fora das intenções do agente. É por excelência o que se passa com o acaso, que é então propriamente uma causa acidental.

c)          Causa primeira e causa segunda. A causa principal pode ser causa primeira ou causa segunda, conforme seja princípio primeiro ou princípio intermediário da ação. Por isto mesmo, toda causa principal é primeira sob algum aspecto, e toda causa primeira é necessariamente causa principal.

Da mesma forma, toda causa segunda é instrumental em relação à causa primeira de que depende. Mas pode sob uma outra relação ser por sua vez causa principal, da mesma forma que a causa primeira pode não ser primeira a não ser sob uma relação definida e causa segunda sob uma outra relação. Veremos que apenas Deus é causa absolutamente primeira e independente: todas as outras causas agem apenas na dependência de Deus, Causa primeira universal, e, como tais, não são mais do que causas segundas.

d)     Causa física e causa moral. Chama-se causa física aquela que age por um influxo físico. Por “influxo físico”, todavia, é necessário não entender uma atividade de ordem sensível e material, mas apenas um influxo real: assim, o arquiteto é a causa física da casa, enquanto dirige toda a atividade dos operários.

A causa moral é a que consiste apenas em determinar moralmente um agente racional no exercício de sua atividade própria, assim, os conselhos dados a um amigo para encorajá-lo, numa empresa. A causa moral, assim entendida, apenas impropriamente é chamada causa eficiente e antes exprime a causalidade final.

3. Ação e paixão. – Podemos, agora, tentar penetrar ainda mais na noção da causalidade eficiente, estudando as relações da ação e da paixão ou, o que vem a ser o mesmo, do agente e do paciente.

a)    A causa não muda pelo fato da ação. Com efeito, a causalidade, como tal, não exprime mais do que o ato de produzir alguma coisa, o que, de si não implica nenhuma passividade no agente.

Este princípio, todavia, não exclui a transformação acidental no agente. É certo, realmente, que o agente corporal é sempre modificado, no próprio exercício de sua atividade causal, pela reação do sujeito sobre o qual age (ou paciente) : assim, o martelo se aquece batendo. Mas o agente não é modificado enquanto age; apenas enquanto sofre por sua vez uma ação de retorno (ou reação) da parte do paciente. Por isso, uma causa eficiente que fosse unicamente causa, sem nada receber (ou sofrer) de nenhuma causa, permaneceria sempre absolutamente idêntica a si mesma. É o que ocorre com Deus, causa primeira universal.

b)         A ação está no paciente. O termo ação é tomado aqui no sentido de efeito produzido. Como tal, a ação não está na causa a não ser como no seu princípio; seu termo está no paciente, que recebe uma modificação e não está nada fora do paciente. A ação constitui então, com a paixão, uma única e mesma realidade, que exprime, enquanto ação, uma relação do agente ao paciente, e, como paixão, uma relação do paciente ao agente.

c)         O efeito preexiste na causa. Este axioma significa, não apenas que o efeito preexiste virtualmente na causa, mas ainda que ele preexiste de uma maneira mais perfeita nela do que existe em si mesmo, enquanto produzido e realizado.

De um lado, se a causa não possuísse virtualmente toda a perfeição do efeito, este viria do nada, ou o mais viria do menos, o que é absurdo. – De outro lado o efeito, antes de ser produzido, nada mais é do que a causa enquanto potência de produzi-lo, e, realizado, não é senão um aspecto parcial da perfeição da causa, o que equivale a dizer que a causa necessariamente mais perfeita do que o efeito.

§ 2.   Causa material e causa formal

1. A causa material. – Designa-se por este nome a matéria de que uma coisa é feita, quer dizer,

sob uma forma mais técnica, o que concorre para a constituição de um composto como parte intrínseca determinada. Com efeito, num composto, a matéria é o princípio determinável (ou potencial), enquanto que a forma é o princípio determinante (ou ato)   (77).

2. A causa formal. – Vê-se pelo que precede que causa formal é sinônimo de forma, uma vez que a forma é o que concorre para a constituição de um composto como parte intrínseca determinante e especificadora (79). É assim que a alma humana, se acrescendo ao corpo, faz dele um ser humano.

§ 3.     A Causa Final

1.    Noção.

a)         Definição. O fim, em geral, é aquilo por que o efeito é produzido. É, então, o termo da ação, na ordem da execução, – e o princípio da ação, na ordem da intenção, uma vez que dirige toda a série das operações. Sob este aspecto, ela é então causa das causas. Por exemplo: Pedro quer ser engenheiro: é este fim (intenção) que vai levá-lo a fazer tais estudos, a entrar em tal escola, a realizar tais exames. Quando conquistar o título de engenheiro, o fim (ou intenção) será realizado e toda a série de atividades dirigidas por este fim estará ao mesmo tempo terminada. O fim é, então, ao mesmo tempo, o princípio e o termo da ação.

b)         Natureza da causalidade final. Como explicar a causalidade final, quer dizer, sua propriedade de mover o agente a produzir alguma coisa? É evidentemente o desejo que está no princípio do movimento: é porque fui solicitado por alguma coisa, que me apareceu como desejável, que resolvi agir.

Mas a explicação deve ser procurada mais adiante, porque pode-se ainda perguntar a razão do desejo. Ora, nós sabemos (192 bis) que a tendência e o desejo não são postos em ato senão pela apreensão de algum objeto que se apresente sob o aspecto de um bem que convém ao agente. É, então, fundamentalmente, o bem enquanto desejável, que explica a causalidade final. Eis por que se afirma que o fim e o bem são convertíveis.

2. Divisão. – Pode-se distinguir o fim em fim da obra e fim do agente, – em fim principal e fim secundário, – em fim imediato e fim derradeiro.

a)         Fim da obra e fim do agente. O fim da obra é objetivo: é o fim ao qual a obra está ordenada por sua própria natureza: assim, a esmola é, por si, destinada a amenizar a miséria do pobre. – O fim do agente é subjetivo, pois reside na intenção: aquele que dá a esmola pode visar quer a amenizar a miséria, quer a obter uma reputação lisonjeira de generosidade. Quando o fim do agente não coincide com o fim da obra, esta se torna um simples meio.

b)        Fim principal e fim secundário. O fim principal é aquele que é visado primeiramente antes de qualquer outro e ao qual os outros fins (chamados secundários) estão subordinados. Assim, o soldado combate com coragem para defender sua pátria e, secundariamente, para obter uma condecoração e uma promoção.

c)         Fim mediato e fim derradeiro. Quer sejam principais ou secundários, os fins particulares não são jamais senão fins mediatos, e jamais o fim derradeiro da ação. Eles são, portanto, subordinados necessariamente a um fim, que é derradeiro e absoluto. Este fim é sempre o bem ou a própria perfeição do agente. Todos os outros fins são particulares e instrumentais relativamente a este fim derradeiro.

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