A existência de Deus é evidente por si mesma?

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“A existência de Deus é evidente por si mesma?”

  • Uma proposição é evidente por si se o predicado está incluído na razão do sujeito.
    • Exemplo: o homem é um animal, porque animal faz parte da razão de homem.
  • Algo pode ser evidente por si de duas maneiras:
    • Evidente em si mesmo e para nós, quando a definição do sujeito e a do predicado são conhecidas de todos.
      • Exemplo: com relação aos primeiros princípios de demonstração, cujos termos são tão gerais que ninguém os ignora, como ente e não-ente, todo e parte, etc.
      • Se alguém ignorar a definição do predicado e a do sujeito, a proposição será evidente por si em si mesma, mas não para quem ignora o sujeito e o predicado da proposição: existem conceitos comuns do espírito evidentes por si apenas para os que as conhecem (as definições), como esta: “as coisas imateriais não ocupam lugar“.

o   Evidente em si mesmo e não para nós:

      • A proposição Deus existe é evidente por si, porque nela o predicado é idêntico ao sujeito (Deus é seu próprio ser).
      • Mas como não conhecemos a essência de Deus, esta proposição não é evidente para nós, mas precisa ser demonstrada por meio do que é mais conhecido para nós, isto é, pelos efeitos.

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A existência de Deus é evidente por si mesma?

QUANTO AO PRIMEIRO ARTIGO, ASSIM SE PROCEDE: Parece que a existência de Deus é conhecida por si mesma.

1. – Pois são assim conhecidas de nós as coisas cujo conhecimento temos naturalmente, como é claro quantos aos primeiros princípios. Ora, diz Damasceno: O conhecimento da existência de Deus está naturalmente infundido em todos. Logo, a existência de Deus é conhecida por si mesma.

2. Além disso, dizem-se por si mesmas conhecidas as proposições que, conhecidos os termos, imediatamente se conhecem, o que o Filósofo atribui aos primeiros princípios da demonstração; pois sabido o que são o todo e a parte, imediatamente se sabe ser qualquer todo maior que a parte. Ora, basta compreender a significação do nome Deus, imediatamente se tem que Deus existe. Pois tal nome significa aquilo do que se não pode exprimir nada maior; ora, maior é o existente real e intelectualmente, do que o existente apenas intelectualmente. Donde, como o nome de Deus, uma vez compreendido, imediatamente existe no intelecto, segue-se que também existe realmente. Logo, a existência de Deus é por si mesma conhecida.

3. Ademais, a existência da verdade é por si mesma conhecida, pois quem lhe nega a existência a concede; porquanto, se não existe, é verdade que não existe. Portanto, se alguma coisa é verdadeira, é necessária a existência da verdade. Ora, Deus é a própria verdade, como diz a Escritura (Jo, 14, 6): Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Logo, a existência de Deus é por si mesma conhecida.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, ninguém pode pensar o contrário do que é conhecido por si, como se vê no Filósofo, sobre os primeiros princípios da demonstração (Livro IV da Metafísica e nos Primeiros analíticos). Ora, podemos pensar o contrário da existência de Deus, segundo a Escritura (Sl. 52, 1): Disse o néscio no seu coração: Não há Deus. Logo, a existência de Deus não é por si conhecida.

RESPONDO. De dois modos pode uma coisa ser conhecida por si: absolutamente, e não relativamente a nós; e absolutamente e relativamente a nós. Pois qualquer proposição é conhecida por si, quando o predicado se inclui em a noção do sujeito, p. ex.: O homem é um animal, pertencendo animal à noção de homem. Se, portanto, for conhecido de todos o que é o predicado e o sujeito, tal proposição será para todos evidente; como se dá com os primeiros princípios da demonstração, cujos termos – o ser e o não ser, o todo e a parte e semelhantes – são tão comuns que ninguém os ignora. Mas, para quem não souber o que são o predicado e o sujeito, a proposição não será evidente, embora o seja, considerada em si mesma. E por isso, como diz Boécio, certas concepções de espírito são comuns e conhecidas por si, mas só para os sapientes, como p. ex.: os seres incorpóreos não ocupam lugar. Digo, portanto, que a proposição Deus existe, quanto à sua natureza, é evidente, pois o predicado se identifica com o sujeito, sendo Deus o seu ser, como adiante se verá . Mas, como não sabemos o que é Deus, ela não nos é por si evidente, mas necessita de ser demonstrada, pelos efeitos mais conhecidos de nós e menos conhecidos por natureza.

QUANTO AO 1º, portanto, conhecer a existência de Deus de modo geral e com certa confusão, é-nos naturalmente ínsito, por ser Deus a felicidade do homem: pois, este naturalmente deseja a felicidade e o que naturalmente deseja, naturalmente conhece. Mas isto não é pura e simplesmente conhecer a existência de Deus, assim como conhecer quem vem não é conhecer Pedro, embora Pedro venha vindo. Pois, uns pensam que o bem perfeito do homem, a felicidade, consiste nas riquezas; outros, noutras coisas.

QUANTO AO 2º, deve-se dizer que, talvez quem ouve o nome de Deus não o entenda como significando o ser, maior que o qual nada possa ser pensado; pois, alguns acreditam ser Deus corpo. Porém, mesmo concedido que alguém entenda o nome de Deus com tal significação, a saber, maior do que o qual nada pode ser pensado, nem por isso daí se conclui que entenda a existência real do que significa tal nome, senão só na apreensão do intelecto. Nem se poderia afirmar que existe realmente, a menos que se não concedesse existir realmente algum ser tal que não se possa conceber outro maior, o que não é concedido pelos que negam a existência de Deus.

QUANTO AO 3º, deve-se afirmar que é evidente por si a existência da verdade, em geral, mas a existência da verdade primeira não é evidente para nós.

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